O responsável

Publicado em: 23/05/2009 às 00:00 | Atualizado em: 23/05/2009 às 00:00


Neuton Corrêa*

O primeiro ônibus aparece na rua. Sentando no concreto do banco, ele põe as mãos sobre as coxas, inclina o corpo para frente, dobra o pescoço, lê o destino da linha, volta para a posição anterior e informa ao irmão mais novo: “Não é o nosso”. O 351 serviria para mim, mas preferi continuar observando-os.

Passa o 350. Ele nem olha, mas volta a sussurrar ao pequeno. O menor passava o tempo a chupar a ponta do colarinho de sua camisa, rondando o ambiente com um olhar murcho. A mochila que usava sobrava-lhe na costa. Como um jabuti, encolhia o pescoço e a cabeça, tentando se esconder em si mesmo.

O terceiro ônibus passa. Grudadinho ao outro, o maior apenas olha para o irmão, ri e o engasga carinhosamente, deixando seu parceirinho ainda mais acanhado. Depois, continua a embalar as penas e a chutar o vento, fazendo um barulhinho com a boca, como se estivesse lançando bola em uma partida de futebol.

Achei até que ele estava mesmo em uma partida de futebol ali por perto. Talvez estivesse lembrando o que fizera alguns minutos antes. Seu rosto empoeirado estava empoado como jaraqui pronto para ser levado à banha. O suor que escorria de sua testa formava trilhas sinuosas que desciam até o queixo.

Os pés dele poderiam ser a confirmação que, de fato, havia saído da sala de aula direto para o campo de chão batido da escola. A calça também. A bainha enrolada havia sofrido bastante. O que antes era branco estava preto. Ele havia aproveitado bem o ponto mais alto do sol da manhã.

Mais um ônibus aparece. Já não sabia quantos haviam passado por aquele ponto. Sabia apenas que o tempo não me permitia mais aguardar para saber em que linha aquelas duas crianças embarcariam. Mas, a curiosidade me concedia mais um tempo para vê-los retornar da pré-escola para casa.

Estava ali a observá-los há mais de quarenta minutos. O entra e sai de pais e mães na escolinha para deixar os filhos na aula da tarde começava a enfraquecer e os dois ainda permaneciam ali, sentadinhos. Pelas minhas contas, todas as linhas já haviam descido. Isso já me fazia preocupado com eles.

Estava prestes a lhes oferecer ajuda, mas eu não era o único a observá-los. Do outro lado da rua, da frente da escola, atravessa uma moça baixinha, rolicinha e de cabelos tingidos de amarelo e pergunta aos dois:

– Por que vocês ainda não foram para casa?
E eles nada responderam.
A moça continua:
– Vocês moram onde?
O mais velho diz:
– No Parque das Garças.

A mulher faz um verdadeiro interrogatório até soltar a pergunta que mais me chamou a atenção:
– Cadê o responsável de vocês?

Assim que ela fechou a boca o ônibus 043 apareceu. Os dois pularam do banco e, animados, erguendo os dois braços fizeram a parada do carro e saíram em disparada para entrar na viagem. A mulher ficou falando desconcertada, mas não sem resposta, pois, gritando pela janela do coletivo, o maior respondeu:
– Eu sou o responsável dele!

A loura olhou para mim, abriu um leve sorriso e atravessou a rua, enquanto eu falava para mim mesmo: “Ai que saudade da infância!”.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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