A terceira natureza da Amazônia
Alfredo Homma propõe transformar áreas desmatadas da Amazônia em uma Terceira Natureza, unindo produção sustentável, recuperação ambiental e desenvolvimento regional.
Por Alfredo Kingo Oyama Homma*
Publicado em: 27/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 27/07/2026 às 00:51
A área desmatada constitui a Segunda Natureza, enquanto a floresta intocada representa a Primeira Natureza. O desafio é fazer com que parte dos 82 milhões de hectares já desmatados, equivalentes a 18% da Amazônia, evolua para uma Terceira Natureza, capaz de conciliar recuperação ambiental e atividades produtivas adequadas.
As alternativas agrícolas passam pela utilização da Segunda Natureza, que equivale à área de três estados de São Paulo, supera a extensão da Região Sul e corresponde ao dobro da superfície da Alemanha e do Japão, respectivamente a quarta e a quinta economias do mundo.
Apesar dessa dimensão, a participação da Amazônia no PIB nacional é de apenas 9,7% (2023), pouco superior à do estado de Santa Catarina, sem produzir o impacto que deveria ter no desenvolvimento regional.
A preocupação exclusivamente ambiental com a Amazônia tem colocado em segundo plano as necessidades mais prementes da população regional, como garantir segurança alimentar, gerar renda e ampliar as oportunidades de emprego.
Apesar da magnitude da biodiversidade amazônica e de seus superlativos geográficos, a sobrevivência de grande parte da população regional depende de espécies exóticas, como os rebanhos bovino e bubalino e as lavouras de soja, milho, algodão, dendezeiro, pimenta-do-reino, café e coqueiro, entre as principais. Mato Grosso tornou-se líder nacional na produção de grãos, algodão e pecuária.
As limitações tecnológicas da região são conhecidas. Os cientistas estão motivados a promover essa mudança, e ela é possível. Na Amazônia, 83% das propriedades pertencem a pequenos produtores, dos quais cerca da metade vive em condições razoáveis. O desafio está em criar oportunidades para a outra metade, representada por colonos assentados, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e populações tradicionais que ainda apresentam baixo padrão de vida.
A Segunda Natureza e o desafio do desenvolvimento
A cultura da juta e a da pimenta-do-reino, introduzidas pelos japoneses, duas culturas exóticas com práticas de cultivo completamente estranhas, foram incorporadas pelos pequenos produtores. Isso demonstra que os produtores da Amazônia não são avessos às inovações: desde que tenham mercado e sejam lucrativas, elas são adotadas.
A Amazônia concentra 108 milhões de bovinos, o equivalente a 45% do rebanho nacional (2024). Entre os estados amazônicos, Mato Grosso possui o maior rebanho (14% do total nacional), seguido pelo Pará (11%) e por Rondônia (8%), que ocupa a sexta posição no país.
Os Estados Unidos, com um rebanho equivalente a 44% do brasileiro (2024), ocupam o primeiro lugar na produção mundial de carne, enquanto o Brasil aparece na segunda posição. Em contrapartida, o Brasil ocupa a quarta colocação no consumo e lidera as exportações mundiais de carne bovina.
O aspecto positivo é o aumento da produtividade, impulsionado pela recuperação das pastagens e pela melhoria da qualidade do rebanho promovidas pelos produtores mais eficientes.
Na Amazônia, encontram-se 11% da área reflorestada do País, com 1.101 mil hectares (2024) de eucalipto, teca, mogno africano, etc. Isto representa uma área reflorestada inferior à de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo ou Paraná.
Duas importantes plantas da Amazônia, a seringueira e o cacaueiro, figuram entre as espécies perenes de maior área cultivada no mundo, ocupando, respectivamente, a segunda e a terceira posições. Apesar de originárias da Amazônia, tornaram-se importantes cultivos em outras regiões.
Em 2024, o Brasil importou 22% da borracha consumida, ao custo de US$ 262 milhões; 36% do óleo de dendê e 75% do óleo de palmiste, com desembolso de US$ 615 milhões; além de 7% do cacau consumido, gerando gastos de US$ 130 milhões.
No mesmo ano, a Bahia respondeu por 63% da produção nacional de guaraná, enquanto São Paulo, Santa Catarina, Bahia, Paraná, Espírito Santo e Goiás concentraram 94% da área cultivada e da produção de palmito de pupunha. A borracha extrativa representa apenas 0,36% da produção nacional de borracha natural, apesar do forte lobby ambiental. Em São Paulo, apenas três municípios produzem mais borracha do que toda a Região Norte.
Inovação, agropecuária e recuperação produtiva
Há muitas propostas visando à salvação da Amazônia e à geração de renda e emprego. Uma delas, que teve repercussão internacional, refere-se à criação das reservas extrativistas, que ganhou maior projeção depois do assassinato de Chico Mendes (1944–1988).
O extrativismo é viável enquanto o mercado permanece pequeno, mas, quando ele começa a crescer, os produtores são estimulados a efetuar plantações e, com isso, ocorre o colapso da atividade extrativa. A maçã extrativa que Adão e Eva provaram no Paraíso desapareceu; mais de 3 mil plantas e centenas de animais foram domesticados.
Para muitos produtos extrativos da Amazônia, existe um conflito entre a oferta e a demanda, como ocorre com a castanha-do-pará, o açaí, a borracha, o pau-rosa e o bacuri, entre outros, para os quais é importante efetuar o manejo e o plantio.
A Amazônia pode ser aproveitada para a criação de peixes, imitando o sucesso da produção de frangos, que, em 2007, superou a produção de carne bovina. O país tornou-se o maior exportador desses dois produtos.
Não existe solução mágica para a Amazônia: as soluções levam tempo, exigem tecnologia e dedicação, e muitas são caras.
É importante aumentar a produtividade agrícola, sobretudo a da pecuária, para reduzir a pressão sobre os recursos naturais; promover a domesticação de plantas potenciais; substituir as importações de produtos tropicais, como borracha, dendê e cacau; garantir a segurança alimentar; e promover a recuperação de áreas que não deveriam ter sido desmatadas.
O autor é amazonense, agrônomo, com mestrado e doutorado em Economia Rural pela Universidade Federal de Viçosa, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica (ABCA); Legendário da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER) e docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Estado do Pará.*
Foto: Foto: PF/AC.
Referências consultadas
HOMMA, A. K. O. (ed.). Sinergias de mudança da agricultura amazônica: conflitos e oportunidades. Brasília, DF: Embrapa, 2022. 487p.
HOMMA, A. K. O. Colhendo da natureza: o extrativismo vegetal na Amazônia. Brasília, DF: Embrapa, 2018. HOMMA, A.K.O. Construindo a Terceira Natureza da Amazônia. Revista Técnica Clube de Engenharia do Pará, Belém, v2. n.1. p.53-55, out. 2024.
LOPES, M. A.; SIQUEIRA, J. O.; HOMMA, A. K. O.; VILELA, E. F. Contribution of the Brazilian Academy of Agronomic Science (ABCA) to the 30th Conference of the Parties to the United Nations Framework Convention on Climate Change (COP 30). Brasília, DF: Academia Brasileira de Ciência Agronômica, 2025. 28 p.
VESENTINI, J. W. Sociedade e espaço: geografia geral e do Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
http://lattes.cnpq.br/1026511676619526
https://scholar.google.com/citations?user=jYxDdQoAAAAJ&hl=en
Foto: Divulgação/Embrapa.
