José Ricardo troca disputa federal por vaga na ALE-AM

Vereador de Manaus teme que a chapa da federação PT-PCdoB-PV não lhe dê votos suficientes para alcançar o alto quociente eleitoral dessa eleição

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Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 24/07/2026 às 15:32 | Atualizado em: 24/07/2026 às 15:32

Mais uma baixa nas hostes partidárias do PT Amazonas nas eleições de 2026.

Após a retirada da candidatura ao Senado do ex-deputado federal Marcelo Ramos, a pedido do presidente Lula da Silva, agora é a vez do vereador de Manaus José Ricardo Wendling (PT) tomar outra decisão.

Nesta sexta-feira (24 de julho), o vereador petista confirmou ao BNC Amazonas que desistiu de disputar uma das oito vagas à Câmara dos Deputados para concorrer à Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM)

Dessa forma, a posição de José Ricardo e do PT é mais do que uma mudança de projeto político. Ela revela uma readequação da estratégia eleitoral do partido.

Sem candidato majoritário ao Senado – com a saída de Marcelo Ramos – e sem um nome de peso para impulsionar a chapa proporcional, o PT passou a concentrar esforços naquilo que considera mais viável: fortalecer sua representação na ALE.

Desse modo, um dos temores do PT e de José Ricardo é justamente o partido não atingir o quociente eleitoral dessas eleições, visto que o time de pré-candidatos a deputados federais poderá não conseguir boa votação para eleger pelo menos um nome da federação Brasil da Esperança, formada pelo PT-PCdoB-PV.

Além de José Ricardo, estão escalados para disputar uma vaga de deputado federal pelo PT: Anne Moura, Luiz Borges (Movimento Negro), João Tayah e Edjane da Fetagri. Há ainda nomes do PCdoB e do PV que vão compor a chapa da federação.

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Alto quociente eleitoral

E os números ajudam a explicar a mudança de rota dos petistas. Pelas regras do sistema proporcional brasileiro, deputados federais e estaduais não são eleitos apenas pela votação individual.

O primeiro desafio é o partido ou federação alcançar o quociente eleitoral, calculado a partir da divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras em disputa.

No Amazonas, no campo legislativos proporcional, serão eleitos em outubro: 8 deputados federais e 24 deputados estaduais.

Com um eleitorado estimado em 2,8 milhões de eleitores para 2026 e considerando um comparecimento próximo de 80% – patamar registrado nas últimas eleições – a projeção indica cerca de 2,13 milhões de votos válidos.

Nesse cenário, o quociente eleitoral ficaria próximo de 266 mil votos para deputado federal e 89 mil votos para deputado estadual na primeira lista de chamada.

Já para entrar pelas “sobras” (80% quociente), o número de votos previstos são: 208 mil para federal e 1 mil para estadual.

Na prática, uma federação precisa reunir aproximadamente três vezes mais votos para conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados do que para garantir uma vaga na ALE-AM.

Votações do petista

José Ricardo é um dos políticos mais conhecidos do PT amazonense. Foi eleito vereador duas vezes, deputado estadual por dois mandatos consecutivos, deputado federal em 2018 e voltou à Câmara Municipal de Manaus em 2024.

Sua trajetória eleitoral mostra crescimento ao longo dos anos. Em 2010, quando conquistou seu primeiro mandato de deputado, recebeu 38.380 votos, tornando-se um dos deputados estaduais mais votados daquela eleição.

Em sua reeleição para a ALE-AM, em 2014, obteve 28 mil votos. Já em 2018, foi eleito deputado federal com 197.270 votos, resultado que o transformou no principal nome eleitoral do PT no Amazonas.

Mesmo assim, se a eleição de 2026 confirmar um quociente eleitoral próximo de 266 mil votos, a federação PT-PCdoB-PV precisará ampliar significativamente sua votação total para assegurar uma cadeira direta na Câmara.

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Mudança de cenário

O próprio José Ricardo recebeu, no fim de 2025, um convite da direção nacional do PT para disputar uma vaga de deputado federal. Na ocasião, afirmou que o objetivo era reconstruir a bancada petista na Amazônia e montar uma chapa competitiva para a Câmara. Também revelou que a direção nacional via como prioridade recuperar a representação federal do partido na região.

Naquele momento, o cenário era outro. Ramos era pré-candidato ao Senado, o PT pretendia disputar uma vaga majoritária e havia expectativa de uma chapa proporcional fortalecida.

A retirada oficial de Ramos, nesta quinta-feira (23 de julho) alterou completamente essa engenharia eleitoral. Sem candidatura ao Senado e diante da necessidade de preservar a aliança nacional construída pelo presidente Lula com PSD e MDB no Amazonas, o partido passou a reorganizar suas prioridades.

Estratégia defensiva

Politicamente, a candidatura de José Ricardo à ALE-AM exige um esforço eleitoral muito menor. Além do quociente inferior, a campanha concentra-se praticamente em Manaus e em municípios onde o vereador mantém atuação histórica, reduzindo custos e ampliando as chances de sucesso.

Nesta sexta-feira, por exemplo, José Ricardo está em visita aos municípios de Borba e Novo Aripuanã. E pretende visitar outras localidades neste fim de semana.

Para o PT, isso significa aumentar a probabilidade de ampliar sua bancada estadual enquanto preserva energia para a campanha presidencial de Lula.

Mensagem dos movimentos

Isoladamente, a desistência de Ramos do Senado e a mudança de José Ricardo para a disputa da ALE-AM poderiam parecer decisões pessoais.

Juntas, entretanto, revelam uma mudança estratégica do PT no Amazonas.

O partido, forçosamente, abre mão de protagonismo na disputa majoritária e reduz sua aposta na Câmara dos Deputados para concentrar forças onde enxerga maiores possibilidades de vitória.

Não por acaso, o discurso de José Ricardo permanece alinhado à prioridade definida pela direção nacional: garantir a reeleição do presidente Lula e fortalecer o partido nos estados.

Se a estratégia produzirá o resultado esperado, somente as urnas dirão. Mas os cálculos eleitorais indicam que, em 2026, a disputa por uma das oito vagas do Amazonas na Câmara dos Deputados será uma das mais difíceis das últimas décadas. Assim como exigirá um patamar de votação muito superior ao necessário para conquistar uma cadeira na ALE.

Foto: BNC Amazonas