Estiagem de 2026 preocupa e reacende temor da taxa seca no Amazonas
Alertas da Marinha e da Maersk sobre a estiagem de 2026 acionam sinal de emergência no setor produtivo amazonense contra aumento de fretes.
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 20/07/2026 às 18:11 | Atualizado em: 20/07/2026 às 18:11
A possibilidade de uma nova estiagem severa na Amazônia, entre setembro deste ano e o início de 2027, acendeu o sinal de alerta entre a indústria, o comércio e o setor produtivo do Amazonas.
Além das restrições previstas para a navegação nos rios da região, cresce a preocupação com o retorno da chamada “taxa seca”, sobretaxa aplicada por empresas de navegação para compensar o aumento dos custos operacionais durante o período de vazante.
O alerta foi reforçado em dois documentos divulgados nos últimos dias. A Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, da Marinha do Brasil, publicou o Comunicado Inicial sobre o Período de Estiagem de 2026, enquanto a gigante mundial do transporte marítimo Maersk informou aos clientes que já trabalha com a possibilidade de restrições severas de navegação e eventual cobrança de uma sobretaxa nos fretes.
Segundo a Capitania, os estudos realizados em conjunto com o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (LabClim/UEA) apontam que os níveis mínimos dos rios poderão ficar entre 1,8 metro e 3 metros abaixo dos registrados em 2025, dependendo do trecho analisado.
A previsão é de que as primeiras restrições ao calado das embarcações ocorram a partir da segunda quinzena de setembro, especialmente no trecho entre Itacoatiara e Manaus. Para navios que transportam combustíveis, o calado poderá ser limitado a cerca de 8 metros, enquanto embarcações porta-contêineres poderão operar com até 8,30 metros.
Maersk admite sobretaxa
Do mesmo modo, a preocupação do setor produtivo aumentou após a Maersk, uma das maiores empresas de navegação do mundo, comunicar oficialmente aos clientes que seus modelos indicam um cenário semelhante ao enfrentado nos últimos anos.
Segundo a empresa, existe previsão de restrição de capacidade entre as semanas 41 e 44 (outubro), seguida de possibilidade de interrupção da navegação entre as semanas 45 e 48 (novembro). Na sequência, novas restrições de capacidade poderão permanecer até o final de dezembro.
O comunicado destaca que a redução do nível dos rios poderá provocar limitações logísticas, diminuição da capacidade dos navios e aumento dos custos operacionais.
A empresa afirma ainda que, caso o cenário de estiagem se confirme, poderá ser necessária a aplicação de uma sobretaxa adicional sobre o frete, em razão das dificuldades operacionais.
“Esta situação pode afetar as tarifas de frete durante o período e poderá exigir a aplicação de uma sobretaxa adicional”, informa o comunicado enviado aos clientes.
Embora a Maersk não utilize a expressão “taxa seca”, o mercado identifica esse tipo de cobrança justamente como a sobretaxa aplicada durante períodos de estiagem extrema.
Impacto na economia
Nos últimos anos, a chamada taxa seca se tornou um dos principais fatores de pressão sobre a economia amazonense durante as grandes vazantes.
Como praticamente toda a produção da Zona Franca de Manaus depende do transporte hidroviário para chegar aos mercados consumidores, qualquer limitação no calado dos navios reduz a quantidade de carga transportada por viagem, aumenta os custos logísticos e encarece o frete.
O efeito costuma atingir toda a cadeia produtiva. Indústrias absorvem parte dos custos, enquanto comerciantes e distribuidores enfrentam aumento nas despesas de abastecimento, com reflexos nos preços pagos pelo consumidor.
Segurança da navegação
A Capitania dos Portos ressalta que as restrições de calado têm como principal objetivo garantir a segurança da navegação nos trechos críticos dos rios amazônicos.
O comunicado lembra que as determinações são baseadas em levantamentos batimétricos realizados nos pontos mais sensíveis entre Itacoatiara, Manaus e Coari e podem ser revistas ao longo da estiagem conforme novas medições e eventuais obras de dragagem.
O órgão destaca ainda que a relação entre o nível dos rios e o calado autorizado muda de um ano para outro, devido às alterações naturais do leito dos rios, razão pela qual as réguas hidrométricas de Manaus e Itacoatiara não podem ser utilizadas isoladamente como parâmetro para definir as restrições à navegação.
Setor acompanha cenário
Embora as restrições ainda não tenham sido implantadas oficialmente, o fato de a Marinha e uma das maiores companhias marítimas do mundo projetarem dificuldades para a navegação já mobiliza empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus e operadores logísticos.
A expectativa é de que, nas próximas semanas, novos boletins hidrológicos e levantamentos batimétricos indiquem se o cenário previsto será confirmado ou se poderá haver redução dos impactos esperados para a logística e o abastecimento do Amazonas.
Taxa seca com critérios técnicos
O presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), Bruno Loureiro Pinheiro, manifestou-se sobre os comunicados e preocupações com a estiagem e a volta da cobrança da sobretaxa.
“Os comunicados da Marinha do Brasil e da Maersk acendem um alerta para todo o setor produtivo. A estiagem exige planejamento e cooperação entre os órgãos públicos e os operadores logísticos, mas não pode servir de justificativa para a retomada automática da chamada taxa de seca. A Associação Comercial do Amazonas continuará defendendo que qualquer eventual cobrança observe rigorosamente os critérios técnicos definidos pela Antaq, as decisões do Poder Judiciário e as recomendações do Ministério Público Federal, com total transparência e comprovação dos custos extraordinários. O Amazonas não pode voltar a conviver com aumentos logísticos sem fundamento técnico, que acabam sendo repassados às empresas e, por consequência, ao consumidor”, declarou Bruno Loureiro Pinheiro.
Foto: Ronaldo Siqueira/especial para o BNC Amazonas
