Círculo vicioso
Flávio Lauria analisa como o círculo vicioso da corrupção enfraquece a ética pública e compromete a gestão eficiente do Estado.
Por Flávio Lauria*
Publicado em: 04/07/2026 às 09:10 | Atualizado em: 04/07/2026 às 09:08
Neste espaço tenho feito comentários dos mais diversos, abrangendo educação, cidadania, corrupção, política amazonense, brasileira e tantos outros assuntos.
Por estes comentários tenho recebido inúmeros e-mails na maioria concordando com o assunto em pauta, e outros discordando.
Ele funciona, também, como espelho de uma época, a refletir o estado de espírito da sociedade, através, sobretudo, do articulista – suas dificuldades, revoltas, desilusões, esperanças, indagações, denúncias. Uma janela que dá voz e vez para exteriorizar.
Não raras vezes o manifestante por e-mail, não só enaltece as palavras aqui escritas, mas também acrescenta, principalmente quando se trata de ética na vida pública, e sempre que falta a ética no âmbito do poder público, sobram problemas para o país e para a própria sociedade, que acaba pagando a conta.
Não podemos esquecer que o dinheiro desviado sob a forma de superfaturamento ou de pagamento de propinas é o que acaba faltando em áreas essenciais como saúde e ensino públicos. Cria-se, portanto, um deplorável círculo vicioso, já que o incentivo à educação constitui pressuposto de redução das chances de corrupção, pois abre perspectivas de maior qualificação e melhor remuneração no setor público.
Novos padrões éticos
Independentemente de pesquisas, é preciso reconhecer que uma sociedade notavelmente amadurecida como a brasileira transige cada vez menos contra atos lesivos à boa gestão dos negócios públicos.
As recentes renúncias de governadores e assessores, as inúmeras comissões parlamentares de inquérito em andamento tanto no Congresso como em Assembleias estaduais, a mobilização para apurar ilícitos, demonstram que este é um país em busca de novos padrões éticos na vida pública.
Instrumentos como a Lei de Responsabilidade Fiscal e a vigilância permanente de uma imprensa livre confirmam essa disposição. São apenas os primeiros passos, porém, de um longo processo que só poderá ser considerado bem-sucedido no momento em que o país vier a ser reconhecido interna e externamente como padrão de seriedade e de confiabilidade.
O véu da corrupção
Na origem de todo esse movimento, que está centrifugando a política brasileira e lançando estilhaços malcheirosos para todos os lados, está a incapacidade de nossos políticos de agirem com transparência.
Quem quiser saber o que há por trás desse véu opaco sob o qual se escondem as mazelas do comportamento político desses dias basta perguntar por que e para que sobrevive essa excrescência que é o voto secreto no Congresso?
Para proteger os parlamentares de que e de quem? Até hoje serviu tão-somente para encobrir as próprias culpas e alguns interesses que, de tão escusos, têm de se esconder no anonimato. Aí não há regra, norma nem precedente.
Adota-se a mais conveniente no momento. É isso que está nos levando a tomar como efeito o que é causa e como causa o que é simples efeito. Não é preciso sair por aí perquirindo quem roubou o que de quem nem quais os fraudados e os fraudadores.
Xingamentos, ofensas, agressões e retaliações são simples efeitos de um desvio de conduta que se tornou regra geral da política, pontilhada de biombos atrás dos quais se escondem aberrações de toda sorte. E o círculo vicioso permanece.
O autor é doutor em Administração Pública.*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
