O Bumbódromo está atrapalhando o espetáculo!
Aldenor Ferreira analisa como o Bumbódromo se tornou insuficiente para o tamanho atual do Festival de Parintins, limitando artistas, público e o crescimento do espetáculo.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 27/06/2026 às 13:31 | Atualizado em: 27/06/2026 às 13:31
Durante muito tempo, dizer isso soaria quase como heresia em Parintins. Afinal, o Bumbódromo é símbolo, memória e patrimônio afetivo dos parintinenses. No entanto, é preciso dizer com clareza: o Bumbódromo está atrapalhando o espetáculo.
Inaugurado em 1988, o Bumbódromo manteve praticamente a mesma capacidade de público ao longo das décadas e hoje comporta cerca de 25 mil pessoas. Ou seja, o espaço sempre pareceu limitado diante do potencial de crescimento dos bois.
Nesse contexto, a arena que um dia representou avanço tornou-se insuficiente para a dimensão que o Festival de Parintins alcançou. E isso não é um detalhe. É um problema estrutural.
Quando a arena vira limite
Quando foi inaugurado, o espetáculo do boi-bumbá ainda estava em outra escala. As alegorias eram menores, os módulos cênicos menos complexos e a dinâmica das apresentações seguia uma lógica muito diferente da atual. Com efeito, as coisas mudaram.
Boi Garantido e Boi Caprichoso se transformaram em potências criativas que operam em nível de excelência artística comparável aos grandes espetáculos do mundo.
As alegorias ganharam monumentalidade. Os efeitos cênicos se sofisticaram. A tecnologia entrou em cena, o corpo artístico cresceu e o espetáculo se tornou gigantesco.
No entanto, o espaço continuou o mesmo.
Bois maiores que o Bumbódromo
E aí está o ponto central: o Bumbódromo, que deveria servir ao espetáculo, passou a impor limites a ele.
O espaço já não comporta adequadamente a evolução das alegorias. Além disso, a área de circulação para os artistas tornou-se insuficiente diante da complexidade das apresentações.
Para o público, o conforto também diminuiu, e a capacidade de receber a demanda crescente de turistas e apaixonados pelo festival permanece limitada. O resultado é um paradoxo: quanto mais os bois crescem, mais apertado fica o espetáculo.
A limitação física impacta diretamente a criatividade. Obriga artistas a pensarem soluções condicionadas pelo espaço e não pela potência de suas ideias. Reduz possibilidades de movimento, de surpresa, de expansão visual. Em outras palavras: o Bumbódromo já não acompanha a imaginação dos artistas dos bois.
Da mesma forma, o público também sente. Quem frequenta sabe, os acessos são insuficientes. A circulação interna é apertada. Os serviços não acompanham o volume de pessoas. A experiência de assistir ao festival já não corresponde à grandiosidade que se vê na arena.
A ampliação que nunca sai do papel
O mais curioso é que esse diagnóstico não é novo. Há anos, governos do Amazonas anunciam projetos de ampliação. Todos os anos surgem novas promessas. Novas maquetes, novas projeções. Mas, na prática, nada acontece. O projeto nunca sai do papel.
Enquanto isso, o festival continua crescendo, apesar do Bumbódromo e não por causa dele. Se o Bumbódromo está atrapalhando, talvez seja hora de pensar grande. Não em remendos ou puxadinhos. Mas numa ampliação real, estrutural, capaz de projetar o Festival de Parintins para as próximas décadas.
Porque o Festival já deixou claro que seu futuro é maior do que o espaço que hoje tenta contê-lo. E quando a casa começa a limitar a grandeza de quem a habita, o problema já não está nos bois, mas nas paredes.
O autor é sociólogo*.
Foto: Divulgação/Secom.
