Manaus e Parintins interagem em ecossistema econômico-cultural
O fenômeno reúne agentes, instituições e estruturas responsáveis pela produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços criativos e culturais
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 23/06/2026 às 19:04 | Atualizado em: 23/06/2026 às 19:24
Manaus compõe o ecossistema econômico-cultural do boi-bumbá, embora o ápice da sua celebração popular aconteça em Parintins (AM), a 370 quilômetros da capital em linha reta.
O fenômeno consiste em uma rede de agentes, instituições, recursos e infraestruturas que consolidam a produção, circulação, distribuição e consumo de bens e serviços criativos e culturais.
Interconectados, esses arranjos compatibilizam o desenvolvimento econômico com a preservação e promoção da identidade cultural de determinada localidade ou região.
Desde meado da década de 80 passada, milhares de pessoas se deslocam de Manaus para Parintins, a fim de assistir aos espetáculos dos bois-bumbá Garantido e Caprichoso, na sexta-feira, no sábado e no domingo da última semana de junho.
As galeras (torcedores) que ficam se divertem em eventos familiares ou públicos, como a transmissão dos espetáculos na arena do bumbódromo, por meio de telões instalados no largo de São Sebastião, no centro de Manaus.
Mercados, redes de lojas, supermercados e shopping centers enfeitam-se e promovem performances com motivos da festa de Caprichoso e Garantido para atrair consumidores e promover seus produtos.
Com isso, Manaus torna-se extensão do festival folclórico parintinense, um ecossistema cultural age e reage entre e seu entorno de modo dinâmico.

A pré-temporada do boi-bumbá em Parintins e Manaus acontece após o carnaval, de fevereiro a março, com o Boi Manaus, desfiles de brincantes e itens dos bumbás animados por trios elétricos; e segue-se com os “currais dos bois”, entre abril e começo de junho.
Caprichoso e Garantido se revezam nos fins de semana no sambódromo.
Os “currais” aperfeiçoam a performance dos 21 itens julgados na competição do bumbódromo e, também, mantêm o festival em evidência no maior mercado de turistas da região.
Em Parintins, os ensaios abertos ao público acontecem, no mesmo período, e fazem parte da elaboração dos temas do ano, principalmente na área musical.
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Economia
Os organizadores do festival esperam receber em Parintins ao menos 120 mil turistas, que entram na cidade até duas semanas antes das três noites de espetáculo.
A concorrência por um lugar na cidade é alta: pousadas, hotéis e casas são alugados até com um ano de antecedência.
O movimento dos serviços e comércio geram à cidade ao menos 280 milhões, segundo estimativa do governo estadual.
O aeroporto da cidade vai operar, nos três últimos do festival, com mais de 400 voos, segundo a prefeitura local.
As duas agremiações folclóricas arrecadaram de patrocinadores públicos e privados, para colocar Caprichoso e Garantido, ao menos 50 milhões.
Durante as confecções de alegorias, fantasias e adereços, trabalho realizado nos “galpões”, os bumbás empregam ao menos 5 mil pessoas, 2,5 mil cada um.
Calendário local
Os bumbás cumprem um calendário de atividades locais preparativas para o festival, que também atraem turistas de Manaus e cidades vizinhas, como Santarém, Juruti e Óbidos, no Pará; e Nhamundá, Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Maués, Urucará, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã, Silves e Autazes.

Os eventos mais prestigiados pelo público local e externo são o Boi de Rua do Caprichoso, em junho, e a Alvorada do Garantido, em 1º de maio. Nessas datas, os bumbás saem às ruas embalados pela Marujada e pela Batucada, respectivamente.
Afora os ensaios nos currais, as andanças dos bois pelas ruas da cidade são os momentos mais significativos – e inclusivos – para os moradores de Parintins que, no festival de arena, perdem espaço para os turistas, tanto pelo alto preço dos ingressos quanto pela superlotação das arquibancadas.
A Festa dos Visitantes, realizada no bumbódromo, com shows de artistas nacionais e locais, realiza-se, todos os anos, a três dias da disputa dos bumbás na arena. Serão distribuídas, neste ano, 24 mil senhas de acesso à festa, das quais 18 mil para moradores de Parintins. As pulseiras serão entregues, cada uma, mediante a doação de um quilo de alimentos não perecíveis.
Há ainda, na semana do festival, uma vasta programação de shows, eventos socioculturais e campanhas de sensibilização nas áreas de saúde, educação, meio ambiente e segurança pública.
Formação de público
Os ensaios em Manaus são imprescindíveis porque parte dos “brincantes” que entra na arena mora na capital, inclusive, a “galera”, que é um dos itens do julgamento.
Outros três eventos reforçam o chamado para a festa em Parintins em Manaus: o #Toadas, temporada de shows da plataforma de mídia BNC Amazonas, o Planeta Boi, na Arena da Amazônia, realizado pela Amazon Best, e a Festa da Cunhã, vinculada à ex-BBB Isabelle Nogueira, cunhã-poranga do Garantido.
Uma das características de destaque do ecossistema cultural “boi-bumbá” parintinense no mercado midiático é a sua relação de coexistência com culturas locais e externas, que giram em torno da economia em geral.
O espraiamento da cultura do boi-bumbá favoreceu o turismo regional, que precisa de pessoas cada vez mais envolvidas na festa, em Parintins ou em Manaus.
Por isso, as festas e atividades “bumbalinas” realizadas fora de Parintins, grandes ou pequenas, servem para manter o público atual e formar novos.
Bumbazinho
No Amazonas Shopping, nos dias 20 e 21 de junho, centenas de crianças se reuniram para assistir aos shows de itens mirins representando o Caprichoso e o Garantido. A festança, que recebeu o nome de Bumbazinho, foi grátis e dedicou uma das sessões do dia 20 a crianças com deficiência e autistas.
Centenas de crianças e pais passaram pelo espaço Bumbazinho, que ofereceu, além das performances de palco, oficinas de confecção de adereços, dança, música e fotos com fantasias de itens dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, versões mirins.
O artista Josué Munduruku aplicou grafismo indígena em dezenas de crianças. “Notei que elas pediam, às vezes insistentemente, para serem pintadas com desenhos indígenas”, disse.
Munduruku faz parte do movimento Rodada de Cultura Amazônica, vinculado à Secretaria Estadual de Cultura (SEC), e foi convidado para atuar no Bumbazinho.
“Dá para perceber que o nosso trabalho influencia as novas gerações contra o preconceito e discriminação aos povos indígenas”.
Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
