Graças a Deus, Lula não participará do Festival de Parintins
Presidente anunciou visita à ilha há 16 dias, mas não há qualquer sinal concreto de que a viagem ocorrerá
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 12/06/2026 às 06:20 | Atualizado em: 12/06/2026 às 06:20
Quando esteve em Manaus, no fim de maio, o presidente Lula da Silva afirmou que pretendia visitar Parintins durante o Festival Folclórico deste ano. Na ocasião, chegou a elogiar os bois-bumbás e classificou Garantido e Caprichoso como uma das maiores lições de civilidade do país.
Passados 16 dias da declaração presidencial, porém, não existe qualquer movimentação política ou técnica capaz de sustentar a expectativa de uma viagem do chefe de Estado à ilha tupinambarana.
Nos bastidores políticos, os aliados do presidente no Amazonas deixaram de tratar do assunto. Nenhuma autoridade ligada ao Palácio do Planalto fala da agenda como algo em construção. No campo operacional, o cenário é ainda mais revelador. Não há equipes precursoras instaladas na cidade, não há estrutura de segurança sendo preparada e não existe, até o momento, qualquer sinal visível de uma visita presidencial em fase avançada de planejamento.
Houve apenas uma discreta inspeção em Parintins, com apoio da Casa Militar do Governo do Amazonas. Nada além disso. Nada que permita afirmar, com seriedade, que Lula estará na ilha durante o duelo entre Garantido e Caprichoso.
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Graças a Deus
E, para muitos moradores e frequentadores do festival, talvez seja melhor assim.
A frase pode soar estranha diante da importância institucional da presença de um presidente da República no maior evento cultural da Amazônia. Mas a realidade operacional de Parintins recomenda cautela.
Durante o festival, a população urbana da cidade mais do que dobra. Milhares de turistas chegam simultaneamente por via aérea e fluvial. O sistema viário, naturalmente limitado pelas características geográficas da ilha, opera no limite. Sem a presença de qualquer autoridade nacional, o trânsito já se transforma num desafio diário.
A chegada de um presidente da República mudaria completamente essa dinâmica.
Por razões óbvias de segurança, Lula precisaria ser acompanhado por uma enorme estrutura de proteção, envolvendo agentes federais, militares e equipes especializadas. Ruas seriam interditadas. Áreas de circulação sofreriam restrições. Deslocamentos passariam a obedecer protocolos rígidos.
O pequeno aeroporto de Parintins, por exemplo, teria suas operações interrompidas em diversos momentos. E não se trata de um detalhe irrelevante. É justamente por ali que chega uma parcela significativa dos visitantes do festival.
O porto da cidade também poderia sofrer restrições, como ocorreu durante visitas presidenciais anteriores. Em um evento cuja logística já opera sob forte pressão, qualquer bloqueio adicional produz impactos imediatos sobre moradores, turistas, trabalhadores e organizadores. Até os bumbás sofreriam com os transtornos. E, nessa época, autoridade máxima em Parintins são os bois.
Nada disso diminui a importância de uma eventual visita presidencial. Pelo contrário. A presença do presidente da República em Parintins seria um reconhecimento da relevância cultural e econômica do festival.
A questão é o momento.
Parintins já recebeu Lula durante o festival. Foi em 28 de junho de 2003, no primeiro ano de seu primeiro mandato. Naquele período, entretanto, o evento ainda não possuía a dimensão econômica, turística e logística que alcançou duas décadas depois.
Hoje, o Festival de Parintins se transformou numa operação gigantesca, que mobiliza empresas aéreas, embarcações, hotéis, patrocinadores, artistas e milhares de visitantes de todo o Brasil e do exterior.
Por isso, a ausência de uma visita presidencial neste momento talvez represente uma rara situação em que todos ganham: o presidente evita os riscos operacionais de uma agenda extremamente complexa e Parintins pode concentrar suas energias naquilo que sabe fazer melhor: celebrar, sem interrupções, o espetáculo de Garantido e Caprichoso.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
