Fred Góes, Marialvo Brandão e o novo Garantido

Aldenor Ferreira analisa como a gestão de Fred Góes e Marialvo Brandão transformou o Garantido por meio de planejamento, humanização do trabalho e reorganização institucional.

Fred Góes

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 13/06/2026 às 00:10 | Atualizado em: 11/06/2026 às 23:21

Durante muito tempo, parte do imaginário popular associou o Boi Garantido à improvisação permanente. Consolidou-se quase uma naturalização do atraso, das dívidas, da desorganização e da precariedade estrutural. Foi justamente contra essa cultura que a gestão de Fred Góes e Marialvo Brandão passou a erguer aquilo que muitos torcedores já reconhecem como o novo Garantido.

Mas essa transformação não se explica apenas pelo que o público vê na arena. Ela começou antes, nos bastidores e nos barracões, na relação com os trabalhadores, no respeito aos artistas e na forma de administrar uma instituição cultural tão complexa quanto o Garantido.

No passado, trabalhadores produziam alegorias monumentais em espaços insalubres, sem estrutura adequada, sem refeitório e, em alguns casos, sem sequer banheiro digno. A precariedade acabava romantizada em nome da “paixão pelo boi”. Como se paixão justificasse qualquer coisa. Não justifica. Cultura popular não pode ser construída à custa da desumanização de quem trabalha nela.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores transformações promovidas pela atual gestão de Fred Góes e Marialvo Brandão. A compreensão de que organização, planejamento e respeito humano não diminuem a emoção do espetáculo. Ao contrário, fortalecem.

Quando organização também vira espetáculo

O Garantido parece consolidar uma combinação fundamental entre estabilidade administrativa e valorização humana. Em 2026, as alegorias estão praticamente concluídas semanas antes do festival, as fantasias foram entregues com antecedência para ajustes e ensaios, as relações financeiras se estabilizaram e os pagamentos seguem em dia.

Ao mesmo tempo, a segurança do trabalho foi reorganizada, os barracões reestruturados, o refeitório melhorado, os ambientes tornaram-se mais ventilados e os cronogramas menos desumanos. Tudo isso pode parecer básico em qualquer organização séria, mas por muito tempo esteve distante da realidade do Boi-Bumbá Garantido.

Isso ajuda a lembrar que gestão cultural não se resume à capacidade de captar recursos ou produzir grandes espetáculos. Ela também implica criar condições dignas para que as pessoas trabalhem, produzam arte e preservem patrimônio cultural sem viver permanentemente sob o peso do caos e da improvisação.

Nesse aspecto, Fred Góes e Marialvo Brandão talvez tenham enfrentado um ceticismo recorrente. Parte das críticas feitas durante a campanha de 2023 girava em torno de uma suposta incompatibilidade entre sensibilidade artística e capacidade administrativa, como se grandes artistas populares não pudessem também se revelar gestores competentes.

Entretanto, os fatos mostraram exatamente o contrário. Talvez tenha sido justamente o conhecimento profundo do barracão, do trabalho manual, dos processos criativos e do cotidiano dos trabalhadores que permitiu a Fred e Marialvo reorganizar o Garantido a partir de sua própria base.

A reconstrução institucional do Garantido

Desse modo, a transformação vivida pelo Garantido ultrapassa os limites da reorganização administrativa e financeira. Ela também se sustenta na reconstrução da confiança coletiva dentro do boi. O novo Garantido se revela, sobretudo, na forma como trabalhadores, artistas e associados voltaram a ocupar um lugar central na vida da instituição.

Esse processo se materializa quando trabalhadores percebem respeito, fornecedores passam a confiar na palavra dada, associados recuperam o sentimento de pertencimento e torcedores voltam a enxergar o boi como patrimônio coletivo, e não apenas como espaço de disputa política interna.

A construção de uma praça na Cidade Garantido talvez simbolize isso de maneira muito bonita. Ela não nasceu de um grande patrocinador. Ao contrário, surgiu da mobilização popular, de pequenas doações e de torcedores comuns acreditando novamente no próprio boi.

Esse detalhe possui enorme significado sociológico. Instituições culturais fortes não se sustentam apenas pela grandiosidade de seus espetáculos. Sobretudo, se tornam fortes quando conseguem produzir comunidade, identidade e confiança social. E o Garantido parece viver exatamente esse processo.

Não por acaso, começa a ressurgir entre os próprios torcedores um sentimento que havia perdido força nos últimos anos: o orgulho institucional de ser Garantido. E esse é um movimento decisivo, porque o Festival de Parintins não se resume ao espetáculo apresentado na arena. Para além das apresentações, ele expressa formas de organização social e sentimento de pertencimento coletivo.

Considerações finais

Nesse sentido, quando uma instituição cultural consegue combinar emoção estética, responsabilidade administrativa e valorização humana, ela fortalece ainda mais sua condição de patrimônio social e cultural. Ainda é cedo para afirmações definitivas. Mesmo assim, uma coisa já parece evidente: Fred Góes e Marialvo Brandão estão deixando uma marca que ultrapassa o resultado de um único festival.

Em suma, o maior legado dessa gestão pode estar justamente na consolidação institucional desse novo Garantido. E isso, no longo prazo, pode ser ainda mais importante do que qualquer título.

O autor é sociólogo.*

Arte: Gilmal.