Irmãos Batistas se rendem à história e competência de Radyr Oliveira
Ele foi o único quadro da cúpula da Amazonas Energia mantido no cargo pelos donos da J&F, na Âmbar Energia
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 05/06/2026 às 09:27 | Atualizado em: 05/06/2026 às 09:27
A recente transição no comando do sistema de distribuição de energia elétrica do Amazonas consolidou um fato político e empresarial marcante nos bastidores do setor energético regional. Em meio à reestruturação promovida pela Âmbar Energia, braço do gigante grupo J&F que acabou de assumir a concessão, o engenheiro elétrico Radyr Gomes de Oliveira foi o único quadro da cúpula da antiga gestão a ser prestigiado e mantido integralmente em suas funções. Ele segue intocável na estratégica Diretoria de Relações Institucionais da companhia.
A permanência de Radyr no epicentro das decisões do setor elétrico amazonense tornou-se pública na semana passada, pela comitiva oficial que acompanhou a vinda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Amazonas. No rastro da agenda presidencial, desembarcaram em solo manauara os bilionários Wesley e Joesley Batista, donos da J&F. Quem acompanhou os irmãos em cada passo, grudado à nova liderança empresarial e demonstrando total domínio sobre a realidade local, foi o próprio Radyr Oliveira.
Na prática, o diretor funcionava como o cicerone técnico dos Batistas, descortinando a complexidade operacional da Amazônia para os novos donos do negócio.
Ao se renderem ao histórico e à competência do engenheiro, os irmãos Batistas reconheceram o óbvio: Radyr Oliveira é, hoje, o quadro técnico em atividade que mais profundamente conhece as entranhas e os gargalos do setor elétrico no Amazonas. Sua sobrevivência no topo da pirâmide corporativa não se deu por acaso, mas sim por uma trajetória de mais de 40 anos construída desde as bases da antiga Companhia Energética do Amazonas (Ceam), passando pela era estatal da Eletrobras e pela gestão do grupo Oliveira Energia, até desaguar na atual configuração privada.
A sobrevivência regulatória em jogo
Para além das cifras bilionárias, o setor elétrico no Amazonas possui uma dinâmica política e social que engole gestores forasteiros. Manter Radyr Oliveira é o escudo estratégico que os novos controladores precisavam para navegar na concessão mais complexa do país.
Quem é Radyr Oliveira e o peso de sua trajetória
Formado em Engenharia Elétrica, Radyr Oliveira personifica a memória viva da infraestrutura energética do estado. Ele iniciou sua carreira na base do setor, atuando na área comercial e de projetos. Coordenou agências no interior, liderou o programa Luz para Todos no estado e gerenciou operações descentralizadas em mais de 100 localidades.
Diferente de executivos de gabinete que orbitam apenas os gabinetes de Manaus e Brasília, Radyr conhece o chão de fábrica da floresta. Essa bagagem o levou aos mais altos cargos de comando do setor:
Diretor de Geração e Operação para o Interior (2011–2013): Período em que mapeou as fragilidades do parque gerador isolado do estado.
Presidente da Amazonas Distribuidora de Energia (2014–2015): Comandou a companhia ainda sob a tutela estatal da Eletrobras.
Vice-Presidente e Diretor Técnico (2019–2021): Atuou na transição pós-privatização, garantindo a continuidade operacional quando o grupo Oliveira Energia assumiu o controle.
Diretor de Relações Institucionais (2022–2026): Cargo que exerce atualmente e no qual foi ratificado pela Âmbar Energia.
Por sua contribuição ao desenvolvimento do estado, o engenheiro acumula títulos de cidadão honorário em diversos municípios do interior, a Medalha do Pacificador do Exército Brasileiro e a outorga do Mérito Legislativo pela Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam).
Os Três Pilares da Longevidade e do Prestígio
A decisão da Âmbar Energia de manter Radyr Oliveira como peça única de continuidade baseia-se em três pilares fundamentais que tornam o engenheiro uma figura insubstituível na Amazônia:
- O domínio da “Geografia da Floresta”
Radyr é o principal defensor de que as regras gerais da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), como a abrangente Resolução 1.000, falham ao tentar enquadrar as peculiaridades do Amazonas nos moldes estruturais do Centro-Sul do país. O engenheiro domina com precisão milimétrica os dados logísticos de uma concessão que rasga mais de 37 mil quilômetros de linhas de distribuição em meio à mata fechada.
É dele a expertise para explicar a engenharia necessária para atender comunidades ribeirinhas e habitações flutuantes (como as do município de Tapauá), que exigem soluções atípicas, como postes de 15 metros cravados estrategicamente nas margens dos rios e logística de transporte que depende exclusivamente de barcos e voadeiras.
- Para-choque institucional e gestão de crises
No papel de Diretor de Relações Institucionais, Radyr funciona há anos como o principal porta-voz e o “para-choque” da concessionária nos momentos de maior fervura política.
Quando Manaus ou os municípios do interior enfrentam apagões severos, ou quando a Aleam e a Câmara Municipal de Manaus (CMM) abrem CPIs ou convocações públicas, é Radyr quem ocupa a tribuna e os plenários. Com explicações essencialmente técnicas, ele consegue traduzir crises operacionais complexas em justificativas climáticas ou estruturais — como a altíssima incidência de raios na região —, blindando os acionistas majoritários do desgaste político direto.
- Trânsito político plural e pontes com Brasília
Por ter liderado o sistema elétrico local tanto na fase pública quanto na privada, o engenheiro construiu pontes sólidas com governantes de diferentes espectros políticos, de prefeitos do interior a governadores. Ao mesmo tempo, mantém trânsito livre nos corredores do Distrito Federal, dialogando diretamente com o Ministério de Minas e Energia (MME) e com a diretoria colegiada da Aneel.
Raridade
Radyr Oliveira é um dos raríssimos nomes capazes de negociar a inadimplência crônica de prédios públicos com lideranças municipais em uma semana e, na semana seguinte, defender os interesses regulatórios e os planos de recuperação econômica da concessão em audiências cruciais em Brasília.
Pragmatismo dos irmãos
Ao iniciarem a nova era da distribuição de energia no Amazonas, Wesley e Joesley Batista sinalizam que o pragmatismo empresarial falou mais alto. Para gerir uma das concessões mais deficitárias, complexas e politicamente sensíveis do Brasil, os novos donos da Âmbar Energia entenderam que manter o mapa da mina operacional e institucional guardado na mente de Radyr Oliveira não é apenas uma deferência ao seu currículo, mas uma estratégia vital de sobrevivência regulatória.
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