Festa da Floresta transforma a Amazônia em escola e celebração
Evento em Manaus reuniu agroecologia, arte e saberes ancestrais em defesa da justiça climática no coração da floresta
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 04/06/2026 às 11:33 | Atualizado em: 04/06/2026 às 11:33
Em um tempo marcado pela emergência climática e pelo distanciamento entre as pessoas e a origem dos alimentos, a floresta amazônica ofereceu, mais uma vez, uma resposta simples e poderosa: reunir gente em torno da terra, da comida, da arte e da vida.
Nos dias 30 e 31 de maio, às margens do Rio Puraquequara, na Área de Proteção Ambiental Adolpho Ducke, em Manaus, a Escola na Floresta Tera Kuno foi palco da 6ª edição da Festa da Floresta – Justiça Climática e Cultura Alimentar.
O encontro, promovido pelo Instituto Tera Kuno por meio do programa Arte & Escola na Floresta, reuniu agricultores, artistas, educadores, pesquisadores, estudantes e famílias em uma celebração que transformou a floresta em sala de aula, cozinha, palco e território de resistência.
Ali, o conhecimento não estava apenas nos livros ou nas palestras. Ele brotava da terra, percorria as trilhas da mata, chegava às panelas e ganhava voz nas rodas de conversa, nas canções e nas brincadeiras das crianças.
Durante dois dias, plantar, colher, cozinhar, cantar e celebrar deixaram de ser atividades separadas para se tornarem parte de um mesmo ciclo de pertencimento e cuidado com a Amazônia.
A jornada começou ainda em Manaus, com um passeio fluvial que se transformou-se em uma oportunidade de conexão entre artistas, profissionais de diferentes áreas e pessoas interessadas em construir novas formas de interação social e cultural.
O destino era Tera Kuno, na região do Puraquequara. Cercado pela natureza, o espaço sediou mais uma edição da Festa na Floresta, consolidando-se como um ambiente dedicado à valorização da sustentabilidade, da arte e do bem-estar coletivo.
“Se o campo não planta, a cidade não janta”
Uma das cenas mais marcantes veio justamente das crianças, que ecoaram uma mensagem tão simples quanto essencial: “Se o campo não planta, a cidade não janta”. A frase sintetizou o espírito do evento ao lembrar que a alimentação é resultado de relações profundas entre floresta, solo, água e pessoas.
A programação reuniu nomes importantes da agroecologia, da cultura popular e das artes amazônicas, como Valdely Kinupp, referência nacional em Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC).
Além do grupo Jiquitaia Coco de Roda, do Arraial de Manaós, do músico Leandro Ribeiro e dos artistas Dimas Mendonça e Acácia Mié. Juntos, ajudaram a construir uma experiência em que cultura, biodiversidade e educação caminharam lado a lado.
A gastronomia foi uma das grandes protagonistas da festa. O cardápio apresentou ingredientes tradicionais da Amazônia e mostrou como a biodiversidade regional pode oferecer alternativas saudáveis, sustentáveis e culturalmente enraizadas.
Teve peixe moqueado, caldo de milho com PANC (plantas alimentícias não convencionais), pamonha, pão de pupunha, bolo de ora pro nobis, nhoque de macaxeira, vatapá de mamão verde, guisado de coração de banana e preparações à base de ariá – uma antiga batata amazônica – transformaram cada refeição em uma verdadeira aula sobre soberania alimentar.

Intervenções teatrais
Mas a Festa da Floresta foi muito além da culinária. As apresentações artísticas e intervenções teatrais levaram ao público reflexões sobre o território, a memória e os modos de vida amazônicos.
A personagem Bicho Folharal percorreu os espaços do evento conectando imaginação e consciência ambiental, enquanto a performance “O Agro Não É Pop”, protagonizada pelas crianças, traduziu em afeto e criatividade debates sobre alimentação e justiça climática.
“A expressão teatral na oralidade de histórias e canções da Amazônia reflete a poética inspiradora que vem da floresta com signos ancestrais dos povos originários. A música ditou o ritmo de cada atividade”, contou Acácia Mié, atriz indigena que traz em sua voz e cena a ancestralidade.
Saberes tradicionais
A presença de representantes indígenas e de agricultores familiares reforçou a importância dos saberes tradicionais para o enfrentamento dos desafios contemporâneos.
Em diferentes momentos, participantes destacaram que proteger a floresta não significa apenas conservar árvores, mas preservar culturas, histórias, conhecimentos e formas de produzir alimentos que mantêm viva a relação equilibrada entre seres humanos e natureza.
“A floresta não é apenas o lugar onde a gente pisa, ela é o nosso alimento, a nossa farmácia e a nossa memória. Quando a gente come o que a terra dá, do jeito que nossos ancestrais faziam, estamos mantendo a nossa cultura viva”, destacou a Majé Beth presente na celebração, ressaltando o papel da alimentação como pilar de resistência.

Ensinamentos da floresta
Ao final do encontro, segundo os participantes, ficou a sensação de que a floresta havia ensinado mais uma vez sua principal lição: cuidar da terra é também cuidar das pessoas. E que celebrar, quando se celebra a vida em todas as suas formas, também é um ato político.
“Na Tera Kuno, sementes foram plantadas. Não apenas no solo fértil da Amazônia, mas na imaginação coletiva de quem acredita que outro futuro é possível – um futuro cultivado com alimento, arte, conhecimento e floresta em pé”, concluiu Nora Hauswirth, cofundadora do Instituto Tera Kuno e curadora da 6ª edição da Festa da Floresta – Justiça Climática e Cultura Alimentar.
Também participaram da coordenação da festa Alexandre Vitor (produtor executivo), Emerson Fernandes da Silva (infraestrutura), Saulo Vieira (técnica), Ana Regina e Josiana Vilaça (culinária).
Fotos: divulgação
