David Assayag: para além dos bois!

Aldenor Ferreira e Neil Armstrong refletem sobre a trajetória de David Assayag e sua importância para a identidade musical do Festival de Parintins e da Amazônia contemporânea.

David Assayag

Por Aldenor Ferreira* e Neil Armstrong**

Publicado em: 06/06/2026 às 00:10 | Atualizado em: 05/06/2026 às 20:24

Existe algo raro no Festival de Parintins. Em um espetáculo marcado pela rivalidade intensa entre vermelho e azul, poucos artistas conseguem ultrapassar a fronteira simbólica dos bois. A maioria constrói sua trajetória ligada a uma nação específica, a uma torcida, a uma paixão. Entretanto, alguns nomes escapam dessa lógica. David Assayag é um deles.

Mais do que pertencer a um boi, David, na prática, pertence ao próprio Festival. Ao longo das últimas décadas, a voz de David ajudou a construir a própria identidade musical de Parintins, de maneira particular, e da Amazônia, de forma mais ampla.

O Festival Folclórico de Parintins dificilmente seria compreendido hoje sem a presença marcante de sua interpretação, de seu timbre e da maneira singular com que transformou a toada em uma experiência emocional coletiva.

Nesse sentido, a trajetória de David ajuda a explicar isso. Ele iniciou a carreira ainda nos anos 1980, cantando no Boi Caprichoso. Posteriormente, tornou-se um dos fundadores da Banda Canto da Mata, grupo importante para a consolidação da toada de boi-bumbá fora da arena. Mais tarde, porém, encontrou no Boi Garantido o espaço definitivo para expandir seu talento.

A consolidação do “Rei David”

Foi no boi Garantido que ele recebeu o título de “Rei David”.

A partir da segunda metade da década de 1990, o Festival entrou em uma nova fase. As apresentações ganharam dimensão nacional e, ao mesmo tempo, as toadas romperam as fronteiras amazônicas e o espetáculo passou a dialogar com a grande indústria cultural brasileira.

Nesse processo, David Assayag teve papel central. A interpretação de “Vermelho”, composição de Chico da Silva, tornou-se um fenômeno que levou a toada para rádios, programas de televisão e públicos que sequer conheciam Parintins.

Com efeito, seu mérito maior talvez esteja justamente na capacidade de transitar entre diferentes universos musicais sem perder identidade. David canta toada, samba, seresta e música popular amazônica com a mesma naturalidade.

Poucos artistas conseguem reunir potência vocal, interpretação e permanência histórica de forma tão consistente. Não por acaso, ele se tornou referência para gerações posteriores de levantadores de toadas.

David nunca ficou preso a um único lado dentro do Festival. Como mencionado, defendeu o Garantido durante anos, migrou para o Caprichoso em 2009 e retornou ao Garantido em 2020. Em muitos casos, mudanças assim destroem carreiras artísticas em contextos marcados por paixões tão intensas. Com David ocorreu o contrário. Sua relevância permaneceu intacta.

Isso ocorre porque sua imagem ultrapassou o pertencimento exclusivo aos bois. David tornou-se símbolo de algo maior: a própria memória afetiva do Festival de Parintins.

Quando ele canta, o público não ouve apenas uma toada. Ouve uma época, lembranças familiares, viagens para Parintins, noites no Bumbódromo, disputas históricas e sentimentos que atravessam gerações inteiras de amazonenses.

Considerações finais

Talvez por isso David Assayag desperte respeito entre torcedores rivais. De fato, há artistas que representam um lado. Outros representam um momento. David, porém, representa o próprio Festival Folclórico de Parintins.

E isso não nasce do marketing nem da bajulação típica dos fãs. Surge do tempo, da longevidade e da capacidade rara de permanecer relevante durante décadas em um ambiente extremamente competitivo e emocionalmente exigente.

Em um Festival marcado pela intensidade da disputa, David Assayag construiu algo raro: reconhecimento para além das torcidas. Sua trajetória ajuda a compreender não apenas a evolução do boi-bumbá moderno, mas também a força cultural que Parintins conquistou na Amazônia e no Brasil nas últimas décadas.

De fato, poucos artistas conseguem alcançar esse nível de reconhecimento. A maioria passa pelo Festival. Alguns fazem sucesso, outros vencem disputas históricas. Todavia, apenas raríssimos nomes se confundem com a própria identidade cultural e musical da Amazônia. David Assayag se tornou um desses nomes.

*Sociólogo

**Maestro e produtor musical.

Arte: Gilmal.