‘Eu tinha tudo pra dar errado, mas a cultura me alcançou a tempo’
Da cunhã-poranga Isabelle Nogueira, para quem não há solidão entre os jovens, porque eles serão alcançados, disse, ou pelas drogas ou pela cultura
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 15/05/2026 às 14:32 | Atualizado em: 15/05/2026 às 16:06
Foi com essa frase, sem dramatização, mas com a firmeza de quem revisita a própria história com a consciência, que a cunhã-poranga do Garantido, Isabelle Nogueira, construiu um dos discursos mais densos e reflexivos da manhã desta sexta-feira (15), ao receber a Medalha de Ouro Adolpho Valle, na tribuna da Câmara Municipal de Manaus (CMM).
Ao ocupar a tribuna, Isabelle não se limitou aos agradecimentos protocolares. Transformou a homenagem numa reflexão sobre pertencimento, memória, desigualdade, políticas públicas e o papel da cultura na formação de vidas periféricas. Ela falou de si. No entanto, Isabelle não individualizou a própria trajetória. Em vários momentos, parecia falar por uma geração inteira de jovens amazonenses que cresceram entre a escassez e a tentativa de encontrar um lugar no mundo.
“Hoje eu fiz uma reflexão: ‘Meu Deus, por que que eu estou aqui?’”, disse logo no início. “O que que faz uma menina tão simples, de Manaus, chegar até aqui?”
A pergunta atravessou todo o pronunciamento. E a resposta foi sendo construída pouco a pouco, a partir da infância no bairro São Jorge, das mudanças constantes de casa por conta do aluguel, dos ônibus que aprendeu a pegar sozinha ainda criança, das responsabilidades assumidas cedo demais e, sobretudo, dos espaços culturais que lhe deram acolhimento quando tudo ao redor poderia conduzi-la para outros caminhos.
A infância
Ao recordar a infância marcada pela escassez, Isabelle evitou transformar a própria história em narrativa de pena. Não romantizou a dificuldade, tampouco a utilizou como espetáculo emocional. Tratou a pobreza como realidade concreta, mas também como força formadora.
“Minha infância foi marcada por escassez, muitas das vezes insegurança e muitos desafios”, afirmou. “Mas tinha um lugar que a minha mãe não me deixava sozinha e que ela não ia sozinha: era pro Garantido.”
Em outro trecho marcante de sua falar, ela disse: “Realidades que poderiam ter me levado pra outros caminhos, caminhos que não me trariam aqui a essa tribuna, provavelmente, porque era tudo que eu tinha, era o que eu conhecia naquele momento. E eu tinha absolutamente tudo naquele momento pra dar errado, não nego pra vocês. Mas a cultura me alcançou a tempo.”
Profundidade do discurso
Foi nesse ponto que o discurso ganhou profundidade política e social. Ao falar do Festival Folclórico de Parintins, dos bois de Manaus e dos movimentos de ciranda, Isabelle apresentou a cultura como espaço de pertencimento e acolhimento. Não apenas como espetáculo, mas como estrutura afetiva capaz de sustentar vidas.
“Se eu pudesse resumir a cultura, todos os movimentos culturais, eu resumo em acolhimento”, declarou. “Ali, ninguém julgava a roupa que a gente vestia, as nossas gírias, ninguém perguntava quanto dinheiro a gente tinha. Simplesmente a gente era acolhida.”
O discurso se tornou ainda mais contundente quando ela relacionou diretamente cultura e sobrevivência social. Diante dos vereadores, Isabelle transformou a própria experiência em argumento público, fazendo uma defesa explícita de investimentos em cultura, esporte e educação.
“A cultura salva vidas. A cultura não é apenas festa, não é apenas entretenimento. Ela é ferramenta social, ela é política pública, ela é acolhimento, ela é oportunidade, ela é transformação, ela é esperança.”
Sem elevar o tom, Isabelle fez cobranças diretas ao poder público ao lembrar que os movimentos culturais funcionam como proteção para jovens vulneráveis. O trecho mais forte do discurso veio justamente nesse momento.
“Uma jovem solitária será acolhida por algo. Um jovem solitário será acolhido por algo. Ou pela violência e pelas drogas, ou pela cultura e pelo esporte. Mas um jovem solitário vai ser acolhido por algo, sim.”
A frase silenciou o plenário.
Ao longo da fala, Isabelle retomou diversas vezes a ideia de que os movimentos culturais não lhe ofereceram apenas oportunidade artística, mas identidade. Antes dos títulos (rainha do folclore, cunhã-poranga, cirandeira bela) ela se definiu de outra maneira:
“Antes de qualquer título, eu fui uma jovem acolhida pela cultura amazonense.”
Defesa do festival
A homenagem também serviu para que ela reafirmasse o papel social do Festival Folclórico de Parintins. Ao citar costureiras, alegoristas, pescadores e trabalhadores que encontram renda e propósito durante os festivais, Isabelle ampliou o debate sobre cultura para além do entretenimento e da economia criativa. Tratou o festival como engrenagem humana e coletiva.
O discurso também carregou uma reflexão sobre representatividade amazônica. Ao lembrar que cresceu sem referências parecidas consigo nos meios de comunicação, disse que precisou construir dentro de si a mulher que queria se tornar.
“Eu encontrei em mim a referência que estava ainda por nascer.”
Na reta final, voltou à pergunta que abriu sua fala: “Será se eu mereço estar aqui?”. Dessa vez, respondeu sem hesitação.
“O que me fez chegar até aqui foi a fé em Deus, foi a minha mãe, foi a educação pública, foi a essência amazonense, foi Manaus, foi Parintins, foi a cultura. E eu mereço estar aqui. Não apenas por mim, mas por todas as meninas periféricas que sonham grande.”
Ao encerrar, Isabelle citou o poeta amazonense Thiago de Mello: “Quem não sonha o azul do voo, perde o poder do pássaro”.
E concluiu olhando para os jovens do Amazonas:
“Que os nossos jovens continuem sonhando com o azul do voo. Vale a pena sonhar. E eu sou testemunha viva disso.”
Foto: BNC Amazonas
