Marilene Corrêa diz que pensamento amazônico se contrapõe ao colonialismo interno
Integração entre literatura, ciência, arte, filosofia e religião impulsiona a produção intelectual amazônica e reforça o dinamismo cultural da região, aponta pesquisadora.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 15/05/2026 às 05:26 | Atualizado em: 15/05/2026 às 05:26
A professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marilene Corrêa disse ao BNC Amazonas que o conhecimento sobre a Amazônia precisa ser traduzido em educação política que transforme as oportunidades e possibilidades de escolhas para as suas populações.
Marilene Corrêa conquistou o título de Pesquisadora Emérita do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em reconhecimento aos seus esforços para compreender as sociedades amazônicas e suas demandas socioculturais.
Para a pesquisadora, já existe um pensamento científico desenvolvido na região que busca a convergência de “planos e realizações em benefício das maiorias”, em resposta aos “intérpretes apressados” que desconhecem a história e até temem os desafios geográficos da Amazônia.
O mais importante, para ela, é que o aprimoramento desse conhecimento se dá por meio de cadeias de estudos e pesquisas que envolvem, além de pessoas, instituições públicas e privadas.
A pesquisadora atesta que, nas últimas décadas, se intensificou o diálogo entre literatura, ciência, arte, filosofia e religião, cujo resultado é a injeção de dinamismo na produção científica e intelectual da região.
Marilene Corrêa registra que, mesmo atuando em projetos científicos nacionais, os grupos de pensadores e pesquisadores da região “guardam uma vigilância epistêmica e um distanciamento estratégico diante do colonialismo interno, do ‘extrativismo científico’ e de ‘novas colonialidades científicas de pessoas e instituições’”.
Confira a entrevista:
Do alto dos seus anos de pesquisadora e professora, a senhora acredita que já há um pensamento amazônico capaz de interpretar as demandas socioculturais da região?
Sim. Há! E não apenas dos intérpretes clássicos dos sertões, ou das regiões remotas carentes de Estado, que pensavam que essas regiões precisavam de um herói civilizador. Há um pensamento amazônico que se integra às tendências interpretativas da agenda do desenvolvimento brasileiro.
Neste pensamento, a região é rica em recursos a serem explorados pelas elites econômicas que, na melhor das hipóteses, buscam intervir na sociedade gerando empregos, salários, circulação da economia e assegurando políticas públicas. Esse já “é o caminho do céu”.
Mas sabemos que essa harmonia é ilusória e não se sustenta em momentos de crise econômica. Ou mesmo em uma disputa entre as elites: é o povo que paga a conta, com menos direitos e prolongamento da miséria.
Mas há um pensamento amazônico utópico, que lê a região como espaço da natureza viva, de convivialidade, da diversidade sociocultural de povos, etnias e nacionalidades. Nesse mundo cultural e no âmbito das filosofias do bem-viver, a Amazônia é o espaço de liberdade e de direitos originários e tradicionais, de uma relação equilibrada entre natureza, cultura e governança participativa em todas as esferas.
Esse pensamento mobiliza milhões de amazônidas do Brasil e da Pan-Amazônia, vimos isso na COP 30, está cartografado entre os conflitos sociais pela terra e pelo direito de viver com mais dignidade, e em grandes eventos de mobilização popular na América do Sul. São vozes que gritavam pela vida na Amazônia profunda, que exigiam reparação, que choravam a degradação da natureza e que têm sede de participação nas decisões sobre o planeta. Esse pensamento produz as demandas que não são geradas pelo lucro, mas pelos direitos. E não vão recuar.
E há a expressão de um pensamento científico da Amazônia e sobre a Amazônia onde se buscam convergências de planos e de realizações em benefício das maiorias, no qual se inserem críticas e rupturas com os intérpretes apressados externos que desconhecem as bases de nossa história, se perdem ou morrem de medo dos desafios geográficos e de nossa diversidade.
Várias expressões desse pensamento já desvendaram inúmeros processos sociais e naturais por meio da pesquisa científica. Estamos em um momento muito particular de produzir sínteses interpretativas, de explicar e compreender o alcance dos meios e modos de dominação do mundo natural e sociocultural, de compreender e romper com a reprodução das colonialidades.
E o debate sobre tudo isso gera novas expectativas sociais e políticas, podendo indicar uma posição e um rumo diferente para o Amazonas no Brasil e para a Amazônia no mundo.
Já ultrapassamos algumas etapas desse conhecimento? Qual seria o patamar ideal?
O patamar ideal é a tradução política desse pensamento em uma educação política que transforme as oportunidades e possibilidades de escolhas, o que não é fácil.
Exige um patamar de satisfação básica, econômica e cultural (possível apenas com governos democráticos e comprometidos com essas mudanças) e um expressivo volume de difusão cultural e científica que prepare as maiorias para o exercício do ato político de mudança radical. Isso inclui uma poderosa vontade e estímulo à participação política.
Erradicar a pobreza e a insuficiência de qualidade das políticas públicas, transformar as bases de uso e apropriação de tecnologias, gerir a população para a produção de novas soluções de vida nos biomas e ecossistemas amazônicos, e promover profundas alterações na estrutura ocupacional nas cidades, nos campos e na floresta são iniciativas complementares ao desenvolvimento do conhecimento.
Temos condições científicas de pensar a sustentabilidade de acordo com nossas culturas de adaptabilidade, mas essa alternativa exclui as elites que se mantêm no poder com o modelo brasileiro predominante, que é aquele centro-periferia. E, neste, o lugar da Amazônia é de subalternidade.
Quais intelectuais contribuíram mais pontualmente com a formulação do pensamento social amazônico?
As redes de conhecimento se intensificaram. As cadeias de conhecimento não incluem apenas pessoas, e sim iniciativas, a circulação de conhecimento em editorias científicas e culturais, em publicações especializadas e em jornais independentes.
Intensificaram-se as interlocuções entre literatura, ciência, arte, filosofia e religião, e isso forma um dinamismo novo e estimulante. Prefiro pensar assim do que nominar indivíduos que contribuíram para isso. Mas eles, os intelectuais, existem, e podemos dizer que houve um trabalho geracional que estimulou essas dinâmicas.
Os intelectuais produtores, dinamizadores e construtores desse ambiente cultural estão dentro e fora das universidades, dentro e fora das agências de fomento, dentro e fora dos institutos de pesquisa. Os campos disciplinares evoluíram muito, assim como os grupos de pesquisa se institucionalizaram.
O importante é registrar que, mesmo fazendo parte de esforços científicos nacionais, esses grupos guardam uma vigilância epistêmica e um distanciamento estratégico diante do colonialismo interno, do “extrativismo científico” e de “novas colonialidades científicas de pessoas e instituições”.
Os campos e áreas científicas se fortaleceram e criaram suas próprias questões de pesquisa. Aprofundaram o diálogo com os saberes e estabeleceram relações de conhecimento permanente com os povos originários.
A história da região está sendo reconstruída, a geografia se integra a uma visão crítica mais aprofundada, sem abrir mão de explicar as inscrições no território; as políticas de assistência se tecnificaram e superaram o assistencialismo de setores pela construção de políticas de direitos nacionais.
A sociologia e as ciências sociais, em senso amplo, foram pioneiras em identificar, explicar e elaborar a crítica dialética aos avanços do capitalismo, às condições de imersão da região na lógica da acumulação da economia global e às novas expressões das políticas e da indústria cultural. Explicaram, desde o início, os impactos predatórios dos grandes projetos e denunciaram que eles só favoreceriam as grandes corporações.
A sociologia identificou, também, as estratégias do multiculturalismo, do globalismo, as possibilidades e os limites do ambientalismo. Explicou a lógica obsessiva do desenvolvimentismo. Também acompanhou os problemas do desenvolvimento nacional e sua incompetência reiterada de intervir de modo positivo na Amazônia, pondo a região como prioridade econômica da acumulação primitiva da agenda econômica brasileira. Identificou que a Amazônia não faz parte dos projetos nacionais, nem de desenvolvimento nem de sustentabilidade.
Mas igualmente registrou, acompanhou e compreendeu os primórdios das insurgências dos trabalhadores das cidades, do mundo agrário e da floresta, assim como acompanhou a transformação do extrativismo de subsistência em agressor da natureza.
A Antropologia saltou de agendas exclusivas dos museus e grupos nacionais para aplicar-se aos estudos interseccionais dos indivíduos e grupos sociais urbanos e rurais amazônicos, além de acumular acervos e práticas científicas relevantes com povos originários e tradicionais da floresta e da bacia.
Esses campos de conhecimento, que estão mais próximos do nosso exercício profissional, dialogam com as ciências da natureza e com os processos sociais em curso com muita frequência e alteridade.
Retomando o fio geracional, eu diria que esses campos e sujeitos do conhecimento responderam e se integraram às questões do seu tempo. Eles deram sentido à formação de novos pesquisadores, ao aprimoramento institucional das práticas científicas e, mesmo, às agendas de fomento de pesquisa nacionais e locais.
O pensamento sociocultural da Amazônia envolve, hoje, o conhecimento dos povos tradicionais. De que forma?
No disciplinamento do pensamento social, ele é constituinte e está no âmago das preocupações de compreensão do passado e do futuro. Isso porque os povos sobreviveram ao massacre físico, ao epistemicídio e às reiteradas tentativas de exclusão da sociedade nacional.
São contemporâneos, como nós. Somos populações regionais híbridas e muito integradas às nossas forças culturais. Identidades múltiplas que se ordenam em um ethos cultural forte. Aliás, todas as regiões brasileiras têm essa dimensão.
A Constituinte de 1988 mudou o trajeto trágico da história dos povos originários e das populações tradicionais, felizmente, mas as dificuldades ainda são muitas.
O governo anunciou a primeira universidade indígena do País, que será no Amazonas. Chegou tarde, não? Cite os porquês do seu entendimento.
Começo a questionar se foi tarde mesmo, ou se o protagonismo dos indígenas ainda não tinha aprimorado o pertencimento, o reconhecimento e os processos interativos de interlocução entre as diferentes culturas a serem integradas no formato institucional de uma universidade.
Certo é que já existe um contorno político acerca do conteúdo e da função que a universidade indígena desempenhará nas redes nacionais e internacionais de conhecimento científico. Seus interlocutores contemporâneos já estão escolhidos, assim como os seus aliados ou instituidores dos objetivos desta universidade.
O que foi tardio, em minha opinião, foi o processo de construção de políticas educacionais pelos próprios povos indígenas. O debate sobre a educação nacional demorou a compreender que os distintos níveis da educação são inseparáveis dos processos socioculturais.
Mesmo com as críticas à educação nacional, os indígenas participaram dos processos de ensino-aprendizagem para negá-los e criticá-los com o paradigma da educação escolar indígena construído na luta, à sua maneira.
Os povos não desistiram da educação nacional, mas radicalizaram a ruptura com seus fundamentos. Só eles podem falar sobre suas necessidades educacionais e sobre suas políticas educativas. Consideram-se aptos a dialogar em todos os níveis com a sociedade brasileira da qual são parte, e o farão quando quiserem.
Fotos: BNC Amazonas/Wilson Nogueira
