Endividamento das famílias brasileiras bate recorde e expõe pressão do custo de vida

Mesmo com desemprego em baixa e renda média em alta, juros elevados, inflação e dependência do crédito mantêm brasileiros no vermelho

Da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 08/05/2026 às 07:11 | Atualizado em: 08/05/2026 às 07:11

O endividamento das famílias brasileiras atingiu o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Em abril, 80,9% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, como financiamentos, empréstimos ou contas de cartão de crédito.

A inadimplência — referente às contas em atraso — também segue elevada e alcançou 29,6%. Como informa o g1.

O cenário chama atenção por contrastar com indicadores econômicos considerados positivos. O mercado de trabalho brasileiro registrou taxa de desemprego de 6,1% no trimestre encerrado em março, o menor patamar para o período.

Por conseguinte, o rendimento médio mensal do trabalhador ultrapassou R$ 3.722, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar da melhora na geração de empregos e na renda, especialistas apontam que fatores como o alto custo de vida, os juros elevados e a dependência do crédito continuam pressionando o orçamento das famílias.

Após os impactos econômicos da pandemia, o Brasil reduziu drasticamente a taxa básica de juros para estimular o consumo e facilitar o acesso ao crédito. Em outubro de 2020, a Selic chegou a 2% ao ano, favorecendo financiamentos e empréstimos.

Em 2023, o governo federal lançou o programa Desenrola Brasil, que renegociou R$ 53,2 bilhões em dívidas de cerca de 15 milhões de brasileiros, proporcionando uma redução temporária da inadimplência. Naquele período, a expectativa era de reorganização financeira das famílias, impulsionada também pela queda gradual dos juros.

Instabilidade

Entretanto, o alívio não durou. Ao longo de 2024 e, principalmente, em 2025, a economia global voltou a enfrentar instabilidades, influenciada por fatores como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a pressão inflacionária internacional.

Com isso, o Banco Central retomou o ciclo de alta da Selic, que alcançou 15% ao ano em junho de 2025, o maior nível desde 2006. O aumento encareceu o crédito e dificultou ainda mais o pagamento das dívidas acumuladas.

Segundo o economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, a melhora do mercado de trabalho não foi suficiente para aliviar o orçamento doméstico. Ele afirma que, embora a renda tenha crescido, os custos cotidianos continuam mais altos do que em anos anteriores, além do peso das dívidas contraídas durante a pandemia.

Dados do Banco Central mostram que o comprometimento da renda familiar com dívidas bancárias chegou a 29,3% em janeiro deste ano, também no maior nível da série histórica, evidenciando a dificuldade das famílias em equilibrar consumo, crédito e despesas básicas.

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Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo