No aniversário do BNC, Robério Braga diz que Manaus vive processo de desmemória
Braga falou em nome dos articulistas, cronistas e ensaístas que participaram da obra celebrativa dos dez anos da plataforma de mídia política BNC Amazonas
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 07/05/2026 às 09:23 | Atualizado em: 07/05/2026 às 09:27
O escritor, pesquisador e mestre em Direito Ambiental Robério Braga disse nesta terça-feira, (5), no lançamento do livro Diálogos do nosso tempo, na Livraria Valer Teatro (Largo de São Sebastião), que Manaus não tem tido capacidade para firmar sua cultura. Ele se referia ao processo de desmemória pela qual passa desde há muito tempo.
Braga falou em nome dos articulistas, cronistas e ensaístas que participaram da obra celebrativa dos dez anos da plataforma de mídia política BNC Amazonas, fundada e dirigida pelo jornalista e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia Neuton Corrêa.
Corrêa foi saudado por Robério como o construtor de uma catedral, o BNC Amazonas, que se ergue todos os dias há dez anos.
Ele apresentou as razões pelas quais escreveu o ensaio “Caso típico de desmemória”, no qual reafirma os feitos político-administrativos do governador do Amazonas, Eduardo Ribeiro (1890-1896), cidadão “pobre, preto, filho de escravos, maranhense e militar”, adjetivos que soavam pejorativos às elites políticas e econômicas da época.
Apagamento de memória
Explicou que decidiu pesquisar e escrever sobre Ribeiro desde quando percebeu a intenção de apagarem a sua história e legado. Destacou que o ex-governador, um arguto visionário, “fez aquilo que de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa vieram a realizar somente entre 1955 e 1960 em Brasília: a Praça dos Três poderes”.
E continuou: “Teríamos, aqui, os quatro poderes. Um moderador? Não! Os poderes do espírito, da alegria, e da arte: o Teatro Amazonas; no alto do hoje Instituto de Educação do Amazonas (IEA) ficaria o Palácio do Governo, mais belo ainda; na hoje praça Antônio Bitencourt, ficaria o prédio da Assembleia Legislativa; e Palácio da Justiça [na hoje avenida Eduardo Ribeiro] completaria a harmonia entre os poderes de uma sociedade democrática e justa como ele desejava”.

Morte por envenenamento
Ribeiro, lembrou o ensaísta, por ser autor dessas e outras realizações, ameaçou os interesses políticos e econômicos das elites amazonense e, por isso, foi perseguido e morto por envenenamento.
Seus algozes, entretanto, disseminaram a versão, inclusive em livros históricos e “confiáveis, que o governador que fez as primeiras grandes obras de urbanização de Manaus cometera suicídio.
Expansão urbana
Para Braga, a desmemória oscila há décadas entre governantes que resguardam a tradição e o patrimônio histórico da cidade e outros que o negligenciam e até o destroem.
Ele citou o caso da parte superior do Palácio do Governo, erguido por Eduardo Ribeiro, que foi dinamitada por seus adversários.
Mesmo assim, ele revela que leu em uma postagem de internet que o palácio fora inaugurado. Ele credita essa informação falsa à falta de compromisso com a verdade nesses tempos de pressa exacerbada e zero de respeito à verdade.
“Em razão da expansão urbana horizontal de Manaus, perderam-se referências significativas: as peixarias viraram pizzarias e churrascarias; as pessoas não transitam mais pensando no nome da rua para onde vão, usam a internet para se orientar; os trajes a alimentação, a música e o ritmo da cidade estão modificados”, lamenta Braga.
Em síntese, Braga afirma que essa confusão de “várias cidades em uma” subtraiu o tempo das pessoas que poderiam pensar nos rumos de Manaus, independentemente do governo de plantão. “Não há mais tempo para se pensar na cidade”, acentuou.
Cidade acolhedora
Ainda que pese os seus problemas sociais, Braga assinala que Manaus é uma cidade acolhedora – “e acolhe muito bem!” –, porém, perde um pouco de si para os que chegam, sem fortalecer a sua própria cultura.
“É inimaginável pensar que passamos de 1913 a 1997 sem ter ópera em uma cidade reconhecida, mundialmente, pelo seu teatro. Isso é diferente de outras grandes cidades que tem belos teatros, mas que não são eles as suas referências culturais”, afirmou.
E citou os exemplos: o Opera Garnier não é a referência de Paris, é a Torre Eiffel; em Milão é o Domo, não é o Scalla, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro também não, o monumento icônico é o Cristo Redentor; São Paulo também tem teatro, mas o seu símbolo urbano-cultural é o Viaduto do Chá; o Rio Grande do Sul é conhecido pelo chimarrão, não por meio do teatro que possui.
“Mesmo assim, passamos 87 anos sem ter manifestação artística para qual a Teatro Amazonas foi construído”, pontuou.
Cidade precisa ser sentida
Braga aponta que a longa ausência de espetáculos operísticos no Teatro Amazonas deve ser creditada à inoperância das lideranças desse período; por isso, ele sentencia: “Precisamos escolher melhor nossos representantes, amar mais a nossa cidade, sentir o cotidiano dela, estudá-la mais e respeitar os nomes tradicionais da sua história; não só os das pessoas, mas os nomes de ruas e prédios”.
Na avaliação do ensaísta, as pessoas desconhecem cada vez mais a cidade em que moram, e isso faz com que ela perca sua própria alma e fique procurando alma na terra dos outros.
Parintins
A exceção, segundo Braga, é Parintins no caso da linguagem local que resiste, em razão da influência paraense.
Aliás, em relação a Parintins, ele disse que, para o seu sossego espiritual, prometeu não deixar que o boi-bumbá Caprichoso ou o boi-bumbá Garantido o escolhesse até ser convencido de quem é o melhor. E, assim, sem esta resolução, confessou que inda permanece vestindo as camisas dos dois bumbás.
Perfil
Robério dos Santos Braga é mestre em Direito Ambiental, membro da Academia Amazonense de Letras (AAL) e vereador de Manaus (1989-1996). Entre os cargos estratégicos da administração pública, comandou as secretarias das áreas da comunicação e cultura nos seguintes períodos: 1997-1999, 1999-2002, na gestão Amazonino Mendes; 2003-2010, na gestão Eduardo Braga; 2010-2014, gestão Omar Aziz; 2014-2017, gestão José Melo; 2017, gestão tampão de David Almeida.
No meio cultural, Braga se notabilizou por ter criado o Festival Amazonas de Ópera, o Amazonas Film Festival e revitalizado o centro histórico de Manaus, como a Praça de São Sebastião, que passou a ser conhecida, também, como Largo de São Sebastião.
Fotos: Wilson Nogueira
