Crime organizado avança sobre terras indígenas na Amazônia

Relatório internacional aponta expansão de economias ilegais, falhas do Estado e aumento de conflitos em territórios tradicionais

Crime organizado avança sobre terras indígenas na Amazônia

Da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 03/05/2026 às 13:22 | Atualizado em: 03/05/2026 às 13:22

Um novo relatório intitulado “Amazônia sob ataque: como o crime organizado e a militarização ameaçam os povos indígenas” acende o alerta para o avanço de redes criminosas sobre territórios indígenas na Amazônia, com impactos diretos sobre a vida, a cultura e a autonomia dessas populações — especialmente no Brasil.

O estudo, que analisou sete casos em cinco países — Colômbia, Equador, Peru, Brasil e Venezuela —, revela que atividades como mineração ilegal, narcotráfico e extração clandestina de madeira deixaram de atuar de forma isolada e passaram a integrar sistemas complexos de controle territorial e econômico.

Segundo o documento, essas redes já afetam 67% dos municípios amazônicos e colocaram 32% das terras indígenas sob disputa entre grupos armados. A reportagem foi divulgada pelo portal Instituo Humanas Unisinos.

A escalada da violência é evidenciada por dados alarmantes: desde 2012, ao menos 296 defensores ambientais e de direitos indígenas foram assassinados na região, sendo Colômbia e Brasil os países mais perigosos para quem atua na proteção da floresta.

Elaborado pela Amazon Watch em parceria com organizações indígenas e pesquisadores independentes, o relatório foi apresentado durante o Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, realizado em Nova York.

O documento também critica a resposta dos governos, baseada principalmente na militarização, considerada ineficaz e, em muitos casos, agravadora dos conflitos.

Segundo Raphael Hoetmer, diretor do Programa Amazônia Ocidental da entidade, as ações repressivas frequentemente resultam na ocupação de territórios e na ampliação da violência, sem fortalecer as estratégias próprias dos povos indígenas. “A resposta dos Estados muitas vezes piora a situação”, afirma.

Os impactos sociais são profundos e atingem especialmente grupos vulneráveis. Mulheres indígenas enfrentam aumento da violência sexual e do tráfico de pessoas, além de dificuldades no acesso a serviços básicos.

Crianças e adolescentes também estão sob risco crescente, com registros de recrutamento forçado, trabalho infantil e até situações análogas à escravidão.

O estudo ainda destaca ameaças a povos indígenas isolados, cujos territórios vêm sendo invadidos por organizações criminosas. Um dos exemplos citados é o do povo Kakataibo, em áreas transfronteiriças.

No Brasil

No Brasil, o relatório traz como um dos casos mais emblemáticos o território do povo Munduruku, que se tornou um dos principais focos de mineração ilegal de ouro, com atuação de facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.

Outro ponto crítico é a região de fronteira entre Brasil e Peru, onde comunidades indígenas enfrentam a expansão do narcotráfico, do cultivo de coca e da exploração ilegal de madeira.

As conclusões reforçam que, além da presença do crime organizado, a ausência de políticas públicas eficazes e a fragilidade das estratégias estatais contribuem para um cenário de crescente instabilidade.

Para os autores, a proteção dos territórios indígenas passa necessariamente pelo fortalecimento da autonomia desses povos e pela construção de respostas que respeitem seus modos de vida e direitos coletivos.

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Foto: divulgação