Mapa revela que trabalho escravo lidera conflitos no campo no Brasil

Plataforma inédita reúne dados históricos e expõe avanço do agro sobre direitos humanos.

Trabalho escravo: Amazonas tem uma empresa na 'lista suja'

Publicado em: 30/04/2026 às 09:50 | Atualizado em: 30/04/2026 às 09:52

Um novo mapa do conflito rural no Brasil joga luz sobre um dado incômodo: o trabalho escravo domina as ocorrências no campo.

Lançada pelo Observatório Socioambiental na sede da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, em Brasília, a plataforma reúne informações de 15 organizações e cobre mais de quatro décadas de registros.

O levantamento aponta que, entre 2002 e 2023, foram documentados 89.537 conflitos socioambientais. Desse total, 46.912 envolvem trabalho escravo — o equivalente a 52,4%.

Os dados têm como base registros da Comissão Pastoral da Terra e indicam que a exploração humana segue associada à expansão agrícola.

Para a pesquisadora Isabel Figueiredo, do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), o avanço do agronegócio carrega impactos evidentes.

“Ele deixa um rastro para trás de impactos que são bem evidentes quando a gente vai analisando os dados da plataforma”.

A ferramenta amplia o debate ao incluir dimensões além da legislação trabalhista formal.

“Direitos humanos não é apenas você estar observando se o seu funcionário segue a Consolidação das Leis do Trabalho [CLT] ou se ele está usando equipamento de proteção individual”.

Grilagem verde e pressão territorial

O estudo também identifica mudanças após o novo Código Florestal, aprovado em 2012. A legislação impulsionou a chamada “grilagem verde”, com apropriação de áreas conservadas por grandes propriedades.

Esse movimento afeta comunidades tradicionais, como geraizeiros e povos de fundo e fecho de pasto.

Jean François Timmers, da World Wide Fund for Nature, destaca o impacto direto:

“Toda vez que tem uma ampliação, você entra na terra que é usada ou utilizada, o que é uma referência importante”.

A plataforma também expõe a invisibilidade dessas populações nos registros oficiais. Para Marina Comandulli, da Global Canopy, o desafio é torná-las visíveis nos mapas.

Onde os conflitos se concentram

O cruzamento de dados mostra concentração de casos em estados-chave do agronegócio.

O Pará lidera com 15.383 registros, seguido por Minas Gerais (8.479) e Maranhão (7.219). A expansão da soja e da pecuária coincide com essas áreas.

Além da terra, a água também virou foco de disputa. Em Minas, a mineração concentra cerca de 60% das outorgas do país. Já na Bahia, a irrigação pressiona bacias e gera confrontos.

Pressão internacional e transparência

A plataforma também mira o mercado global. A ferramenta será apresentada a embaixadas da União Europeia como apoio a regras contra desmatamento importado.

A ideia é elevar o risco reputacional de empresas envolvidas em cadeias produtivas com violações.

“O que a gente quer é que essas empresas, essas companhias trabalhem com esses problemas e tentem resolvê-los”, afirmou Marina.

Com dados integrados de órgãos como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e Ibama, o sistema pretende orientar decisões públicas e pressionar mudanças no uso da terra no país.

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Foto: divulgação/MTE