Livro Degola tem personagem inspirada em Irmã Helena Walcott

Na obra, irmã Eliana defende o direito à moradia e comanda ocupações de terras na periferia de Manaus, na década de 1990.

Livro Degola tem personagem inspirada em Irmã Helena Walcott

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 28/04/2026 às 07:50 | Atualizado em: 28/04/2026 às 07:51

Monique Malcher, autora de Degola (Companhia das Letras), prêmio Jabuti 2021 (contos), revelou, na sua palestra no 4.º Festival Literário do Centro (Flic), que se inspirou na ativista social Irmã Helena Walcott (1938-2022), para criar a personagem irmã Eliana.

Na obra, irmã Eliana defende o direito à moradia e comanda ocupações de terras na periferia de Manaus, na década de 1990.

Irmã Helena, missionária do Preciosíssimo Sangue, é responsável pela organização e fundações de 10 bairros de Manaus, entre os quais, o Armando Mendes, Jorge Teixeira, São Sebastião e Novo Mundo.

Seu nome também foi adotado em ruas e escolas da cidade.

“Não conto a história da irmã Helena, mas ela é inspiração para a criação de uma personagem, Irmã Eliana, também da Igreja, que ajuda uma comunidade de ocupação a se tornar bairro”, explicou Monique.

Memória

Degola está lastreado na memória da narradora, nas escutas e informações de ocupantes de terras do poder público ou latifúndios de especulação imobiliária, inclusive em outras cidades do Norte.

Monique morou em Manaus, vinda de Santarém (PA), na década de 1990, período em que se desenvolve o romance.

Papai Alfredo e Joana são figuras centrais da trama, pois chagam a Manaus, a capital da Zona Franca, esperançosos de mudar de vida, mas, na realidade, se deparam com uma cidade desordenada espacial e socialmente.

O chamado de pessoas do campo para trabalharem nas fábricas de eletroeletrônicos da Zona Franca, a partir do começo da década de 1970, fez surgir uma periferia sem o mínimo de saneamento básico e segurança, enquanto outras milhares pagavam aluguéis caros em áreas igualmente vulneráveis.

Ocupações

É nesse contexto que a autora se inspira em irmã Helena, atuante da Pastoral da Terra, instituição vinculada à Igreja Católica, engajada na organização dos sem terras e dos espaços a serem ocupados.
As reuniões comunitárias organizadas por ela escolhiam as terras e criavam toda a logística para a viabilidade das ocupações.

Foto: Clóvis Miranda/Acervo A Crítica

Irmã Helena era a figura de proa do movimento a liderar os confrontos com a Polícia e com a capangagem dos presumíveis donos das terras em processo de ocupação.

História desconhecida

Monique, em conversa com os leitores, lembrou de uma cena que a Irmã Helena subiu na lâmina de uma pá mecânica para impedir a derrubada de barracos no hoje bairro de São Sebastião, na zona sul.

O operador levantou a lâmina e ela ficou nas alturas por alguns minutos, enquanto os sem terras protestavam para devolvê-la ao chão.

“A presença de uma personagem tem características que lembram da Irmã Helena, por mais que não esteja contando diretamente a história, quando falo da Irmã Elena do livro, as pessoas vão atrás da história personagem real por curiosidade. E assim a gente difunde uma história que nem as pessoas do Norte conhecem”, acentuou Monique.

Trecho

Aos poucos fomos entendendo o que era uma ocupação. Havia um movimento que lutava por nós chamados por nós de Urbano, que hoje chamamos de Movimento Sem Terra.

Na época, o movimento se consolidou tendo na liderança membros da Igreja católica e da Comunidade Eclesial de Base. Irmã Eliana era uma dessas importantes lideranças, como muitas mulheres na

Amazônia foram e são até hoje.

A forma de ocupar geralmente acontecia assim: eles decidiam uma área para ocupar, reuniam a população, escolhiam um dia para entrar nas terras e depois começava o embate com os donos ou com os grileiros. A polícia, atendendo a um mandado judicial, invadia tudo, metia a porrada nos ocupantes e derrubava os barracos. Não tinha papinho nem pelo amor de deus. Mas a história inicial da Mundo Novo foi um pouco diferente.

Movimento sem terra

A população ocupou de forma desordenada, foi tudo sem plano mesmo. Teve até galeroso vendendo pedaço de terra, troca por televisão, geladeira. Depois que estavam lá, alguns moradores foram buscar o apoio do Urbano, sabiam que sem eles seria ainda mais difícil fazer o sonho da moradia vingar. Aquelas terras estavam destinadas a ser um conjunto de casas com os aluguéis lá em cima.

O movimento, desde a década de oitenta, tinha aprendido que era importante as ocupações se preocuparem em traçar as ruas e reservar áreas que no futuro se transformariam em escola, postinho de saúde, centro comunitário e Irmã Eliana explicava nas reuniões com os moradores a importância de reservar esses espaços, porque depois, quando fossem cobrar do poder público, eles não iam ter a desculpa de dizer olha a gente até queria construir, mas vocês não deixaram espaço.

Eleições

As eleições estavam chegando e, pensando nessa proximidade, Irmã Eliana começou a aumentar o número de reuniões com os moradores da Mundo Novo. Em uma delas citaram o nome de Alfredo Mauro, um dos moradores que tinha passado a atuar com o Urbano, chegou a falar que achava um absurdo ver um cabra da comunidade ser funcionário de candidato a deputado que só queria o voto das pessoas e depois sumiria. A gente soube do ocorrido porque a própria Irmã Eliana depois contou pro Alfredo em uma das visitas que fez para Joana […]”

Casa cheia

O Flic, promovido pelo Centro Cultural Casarão de Ideias (rua Saldanha Marinho, Centro), na rua Barroso, ocorreu nos dias 24, 25 e 26 deste mês.

A programação envolveu escritores, livreiros e leitores, e contou com as presenças dos escritores Antônio Prata, Adriana Aguiar, Beto Margem, Eliane Cruz, Danna Dantas, Esteves Ribeiro, Elaine Andreatta, Gilvanna Maldolosso, Itamar Vieira, Leyla Leong, Renato Estrela, Myriam Scotti, Monique Malcher, Silvana Tavano, Tatiana Salem e Wallace Abreu.

O diretor do Casarão, João Fernandes, estimou que ao menos duas mil pessoas estiveram nas atividades do evento.

Foto: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas

“Para alguns parece ser pouca gente, mas, para a literatura, é muita gente. A gente já vê muitas pessoas com livros nas mãos”, afirmou Fernandes.

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