Flávio Bolsonaro ou apenas Flávio?
A tentativa de dissociar Flávio Bolsonaro do legado de Jair Bolsonaro expõe como o sobrenome Bolsonaro virou problema e deixou de ser ativo político.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 02/05/2026 às 00:10 | Atualizado em: 09/05/2026 às 10:28
Um movimento curioso – e nada ingênuo – passou a se tornar comum no noticiário político: Flávio Bolsonaro aparece, com frequência crescente, apenas como “Flávio”. À primeira vista, isso pode parecer um detalhe irrelevante. No entanto, na prática, trata-se de uma estratégia clara de comunicação. Afinal, o sobrenome Bolsonaro virou problema.
Esse deslocamento não ocorre por acaso. Pelo contrário, ele responde diretamente ao desgaste acumulado do nome Bolsonaro no imaginário social. Foram mais de 700 mil mortes na pandemia, em um contexto de negacionismo e descoordenação institucional. Além disso, o país assistiu à desorganização do Estado, à perda de credibilidade das instituições e ao desgaste da imagem internacional do Brasil.
No campo econômico, o cenário também foi crítico: milhões de desempregados, avanço da fome e ampliação do desamparo social. Nesse contexto, o sobrenome Bolsonaro virou problema porque passou a condensar, de forma imediata, esse conjunto de experiências negativas.
Além disso, essa mudança reflete uma tentativa evidente de contenção de danos. O que antes servia como ativo eleitoral agora exige cautela. O nome já não mobiliza apoio com a mesma facilidade e, por isso, passou a representar um custo político relevante, especialmente em contextos de disputa mais ampla.
Flávio é a continuação de Jair
Essa operação encontra um limite evidente. Flávio Bolsonaro não representa uma ruptura. Ao contrário, ele expressa uma continuidade política, ideológica e programática. Suas posições públicas, suas alianças e sua atuação institucional reiteram, de forma consistente, a mesma visão de mundo que marcou o período recente da política brasileira. Por isso, o sobrenome Bolsonaro virou problema não apenas por associação familiar, mas por coerência política.
Por outro lado, a tentativa de dissociar nome e trajetória revela um fenômeno mais amplo. Na política contemporânea, campanhas moldam identidades com rapidez impressionante. Ajustam nomes, discursos e imagens conforme a conveniência eleitoral. No entanto, como mencionado, essa flexibilidade encontra resistência na memória social. O eleitor não esquece com facilidade, sobretudo quando experiências recentes deixaram marcas profundas.
Nesse sentido, retirar o sobrenome não apaga o passado. Ao contrário, pode até reforçar a percepção de cálculo estratégico. Quando o sobrenome Bolsonaro vira problema, a tentativa de ocultação tende a revelar ainda mais o incômodo que se busca esconder. Assim, o que se apresenta como solução pode, paradoxalmente, intensificar a desconfiança.
Considerações finais
Por fim, permanece uma questão central: é possível separar um político de sua trajetória apenas alterando a forma como ele é apresentado? A resposta, evidentemente, não depende do marketing. Depende da realidade concreta, das escolhas feitas e das posições assumidas ao longo do tempo.
O esforço para transformar “Flávio Bolsonaro” em apenas “Flávio” revela mais do que uma estratégia de comunicação. Ele evidencia, sobretudo, o desgaste de um nome que já não produz os mesmos efeitos políticos de antes. Quando o sobrenome Bolsonaro vira problema, não basta escondê-lo, é preciso lidar com tudo aquilo que ele passou a representar.
O autor é sociólogo*
Arte: Gilmal
