Reforma no julgamento incendeia Garantido, Caprichoso e Prefeitura de Parintins

Polêmica está na proposta de usar modelo do Carnaval do Rio, que o Garantido rechaça sob desconfiança

Reforma Regulamento Festival Parintins Liesa: Foto: GPT

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Márcio Costa, do site AmEmPauta/Parintins (AM)

Publicado em: 22/04/2026 às 23:15 | Atualizado em: 23/04/2026 às 07:30

A exatos 66 dias do início do Festival Folclórico de Parintins, a disputa entre Caprichoso e Garantido deixou os galpões e o Bumbódromo para se concentrar em uma mesa de negociações tensa. A polêmica envolve também a Prefeitura de Parintins. As discussões começaram em janeiro pela Ilha, estenderam-se hoje para Manaus e o ponto final pode ser na sexta-feira, dia 24.

No entanto, este ponto final parece ainda ser sombrio. Pelo menos é o que fizeram circular na noite desta quarta-feira, 22, membros do Garantido.  

O eixo da discórdia? Uma reforma profunda no sistema de julgamento que promete mudar as regras do jogo a poucos metros da linha de chegada.

A proposta, capitaneada pelo município, pretende usar o banco de dados da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) para selecionar os jurados deste ano. A medida, porém, abriu uma fenda no festival. Enquanto a prefeitura alega que o sistema atual está “contaminado e vazado”, o Garantido enxerga um movimento para favorecer o rival e questiona a lisura do modelo carioca.

Blindagem ou tendenciosidade?

O ponto mais inflamável da reforma é a utilização do banco de dados da liga carioca. Fontes ligadas ao Garantidoafirmam categoricamente que não aceitarão a mudança. O argumento é de que existe uma “ligação íntima” entre o presidente da Liesa (egresso da Beija-Flor) e Rossy Amoedo, presidente do Caprichoso, que possui histórico profissional no Carnaval do Rio.

“A Liesa passou por uma série de crises e escândalos de jurados nos últimos 15 anos. É um modelo que já demonstrou problemas e não é o caminho para o festival”, afirma um interlocutor do Boi da Baixa.

Por outro lado, a Prefeitura de Parintinsdefende que o “selo Liesa” funcionaria como uma trava moral. Para o município, um jurado do Rio de Janeiro não arriscaria sua carreira e sua vaga no Carnaval da Sapucaí para se envolver em polêmicas no Amazonas. “A probabilidade de ele fazer besteira em Parintins é menor, porque ele tem uma amarra profissional no Rio”, justifica a fonte da prefeitura.

Três grandes mudanças na mesa

A reforma não se limita à origem dos jurados. O projeto prevê uma reestruturação logística e técnica sem precedentes:

  1. Explosão no número de julgadores: O corpo de jurados saltaria de 10 para 36 profissionais. Em vez de um grupo fixo para as três noites, seriam 12 jurados por noite, em um sistema de rodízio.
  2. Novo bloco de botas: A pontuação deixaria de ser dividida em três blocos para ser distribuída em quatro blocos de julgamento, reordenando os itens oficiais.
  3. Presidente de “casa”: A figura do presidente da Comissão Julgadora passaria a ser uma indicação direta da prefeitura, preferencialmente alguém de Parintins, sem poder de voto nas notas.
ElementoModelo AtualProposta de Reforma
Total de Jurados10 (9 votantes + 1 presidente)36 (12 por noite)
OrigemEdital de Credenciamento AbertoBanco de Dados da Liesa (RJ)
Blocos de Notas3 Blocos4 Blocos
Custo Logístico 10 passagens/hospedagens36 passagens/hospedagens

Fator custo e o relógio contra o tempo

A logística para sustentar 36 jurados — incluindo passagens aéreas de última hora e hospedagem em uma Parintins já superlotada — é outro entrave. Estimativas internas sugerem que o custo apenas com remuneração e logística poderia triplicar, recaindo sobre o Governo do Estado e a Prefeitura.

Para o Garantido, o problema maior é o tempo. Mudar o regulamento faltando pouco mais de dois meses para o evento é visto como uma tentativa de “mudar a regra com a bola rolando”. O boi defende que a seleção deveria ocorrer por um critério objetivo de currículo, estilo “concurso público”, e não por indicação de uma liga externa.

Veredito em aberto

A Prefeitura de Parintins admite que o debate está “amadurecendo” desde janeiro, mas deu o sinal amarelo: a próxima sexta-feira é o prazo limite para um consenso. Caso os bois não cheguem a um acordo, o município sinaliza que pode impor a reforma por decreto, utilizando sua prerrogativa de organizador do julgamento.

Arte: GPT