O “rombo” das contas públicas não está onde dizem estar
Artigo sustenta que o verdadeiro peso do déficit brasileiro está nos juros da dívida, e não apenas nas despesas do governo.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 19/04/2026 às 11:25 | Atualizado em: 19/04/2026 às 11:26
Por anos, o debate econômico no Brasil tem repetido a mesma ideia: o problema das contas públicas é o excesso de gastos. A solução, portanto, seria cortar despesas.
Mas os dados recentes contam uma história bem diferente — e bem mais incômoda.
Entre 2019 e 2025, o Brasil apresentou déficits frequentes. No entanto, ao separar as contas públicas, surge um ponto crucial que raramente ganha destaque: o principal peso do déficit não está nos gastos do governo, mas nos juros da dívida.
Para entender isso, basta olhar dois números. O resultado chamado “primário” mostra se o governo arrecada mais do que gasta, sem contar juros. Já o resultado total inclui o custo da dívida.
E é aí que está o ponto central: mesmo quando o governo fez superávit — como em 2021 e 2022 — o país continuou no vermelho. Por quê? Porque os juros consumiram uma fatia enorme da economia.
Os números não deixam dúvida (valores em % do PIB)
| Ano total | Primário | Juros | Déficit Total |
| 2019 | – 0,8% | – 5,0% | – 5,8% |
| 2020 | – 9,3% | – 4,2% | – 13,5% |
| 2021 | +0,7 % | -5,0% | -4,3% |
| 2022 | +1,2% | -5,5% | -4,3% |
| 2023 | -2,3% | -6,6% | -8,9% |
| 2024 | -0,5% | -7,8% | -8,3% |
| 2025 | ~0% | ~-7,5% | ~-7,5% |
O padrão é claro: os juros ficam quase sempre entre 5% e 8% do PIB, enquanto o resultado primário oscila e, em vários momentos, se aproxima do equilíbrio.
O “superávit” de 2022: um alívio que não se sustentou
O resultado positivo de 2022 foi amplamente celebrado. Mas ele teve forte componente conjuntural.
Naquele ano, o governo:
- adiou o pagamento de precatórios (empurrando despesas para frente),
- contou com arrecadação elevada por inflação e commodities,
- e promoveu desoneração de combustíveis, reduzindo tributos para conter preços no curto prazo.
Essas medidas tiveram efeitos importantes. De um lado, ajudaram a melhorar o resultado naquele momento. De outro, deixaram uma conta para depois.
Parte das despesas foi represada e precisou ser paga em 2023 e 2024. Ao mesmo tempo, a redução de tributos sobre combustíveis afetou a arrecadação futura.
O resultado foi previsível: o superávit não se sustentou e o déficit voltou a crescer nos anos seguintes.
O verdadeiro motor do déficit
O fator decisivo continua sendo a taxa Selic.
Quando ela sobe, o custo da dívida aumenta rapidamente — e o déficit acompanha.
Há ainda um ponto pouco discutido no debate público: o impacto direto da taxa de juros sobre o déficit.
De forma simplificada, cada aumento de 1 ponto percentual na Selic tende a elevar a despesa com juros do governo em dezenas de bilhões de reais ao longo de um ano — estimativas correntes apontam algo entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, dependendo da composição e do prazo da dívida pública. Isso ocorre porque uma parcela relevante dos títulos da dívida está indexada à própria Selic ou precisa ser constantemente refinanciada a taxas mais altas.
Na prática, isso significa que decisões de política monetária têm impacto fiscal direto: juros mais altos ampliam o déficit nominal, independentemente de qualquer mudança nos gastos primários do governo.
O debate que precisa ser feito
Isso não significa que o gasto público não importa. Importa — e deve ser discutido com seriedade.
Mas reduzir o problema fiscal a uma simples narrativa de “gasto excessivo” ignora o principal componente do déficit brasileiro.
O país enfrenta um problema mais complexo, no qual o custo da dívida desempenha papel central.
Enfrentamentos inevitáveis
O Brasil precisa qualificar o debate sobre suas contas públicas.
Insistir que o déficit decorre apenas de má gestão ou excesso de gastos, ignorando o peso dos juros, não é apenas simplificação — é uma forma de desonestidade intelectual, especialmente quando reproduzida de maneira recorrente em parte da grande mídia e de análises superficiais.
Sem enfrentar o custo estrutural da dívida, o país continuará preso a um ciclo em que o ajuste fiscal parece sempre insuficiente — independentemente do esforço feito sobre os gastos.
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*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: José Cruz/Agência Brasil
