Tenório Telles diz que Thiago de Melo encarna Jesus Cristo em sua poesia

A abordagem se deu no festival Literário do Amazonas em celebração aos 100 anos de nascimento de Thiago de Mello

Tenório Telles diz que Thiago de Melo encarna Jesus Cristo em sua poesia

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 02/04/2026 às 05:01 | Atualizado em: 01/04/2026 às 18:05

O poeta e crítico literário Tenório Telles disse que o poeta Thiago de Melo (1926-2022) encarna a persona de Jesus Cristo na poesia e na sua forma de se relacionar com os seus leitores.

A abordagem se deu no festival Literário do Amazonas em celebração aos 100 anos de nascimento de Thiago de Mello, em Manaus (AM), nos dias 26, 27, 28 e 30/3, na livraria Valer Teatro (Largo de São Sebastião, Centro).

Participaram do festival Elson Farias, João de Jesus Paes Loureiro, Violeta Loureiro, Eliakin Rufino, Neiza Teixeira, Tenório Telles, Zemaria Pinto, Mauri Mrq, Frederico Krüger, Maria Abreu, Elaine Andreatta, Gabriel Albuquerque, Thiago Thiago de Mello, Isabella Thiago de Mello, Rita Clark, Leiyla Leong, Greice Cordeiro, Marcos Cardoso Nelson Castro, Clube Literário do Amazonas (Clam) e grupo musical Raízes Caboclas.

Telles revelou que chegou à essa conclusão ao ser instigado pelo poeta decano da Academia Amazonense de Letras (AAL), Elson Farias, que apontou, em podcast produzido pela TV Valer, uma forte presença religiosa cristã na poesia de Thiago de Mello.

Até então, Telles revela que só conhecia as facetas lírica e política do poeta amazonense de Barreirinha, embora estude a sua obra desde a graduação em Letras e Língua Portuguesa, na Universidade Federal do Amazonas.

Também esteve perto do poeta nos últimos 40 anos, seja como coordenador editorial da Valer ou como amigo.

Tenório Telles é editor, poeta e crítico literário. Doutor em Literatura e Crítica Literária e autor de “Prelúdio coral” e “Estudos de literatura do Amazonas”, entre outras obras.

Thiago de Mello publicou várias das suas obras pela Valer, entre elas, Notícias da visitação que fiz no verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus barrancos (2020), Silêncio e Palavra, Menino irmão das Águas e Os Estatutos do Homem.

O senhor acaba de comparar Thiago de Mello a Jesus Cristo. Quais são os parâmetros dessa semelhança?

Passei parte da minha vida estudando a poesia do Thiago. Claro, qualquer pessoa que estude a poesia do Thiago vai perceber, de imediato, aspectos marcantes do viés metafísico, mais reflexivo de sua poética. Depois, a poesia mais engajada, a poesia política.

Após a volta dele para a Amazônia, notamos a presença da natureza no seu discurso lírico, por meio da defesa que ele faz no meio ambiente.

Claro, tem a vertente lírica, que são os poemas reconhecidos e bastante comentados, nos quais ele fala do enleio amoroso. Mas, não tinha me dado conta dessa presença religiosa na poesia do Thiago.

Recentemente, reli toda a poesia dele e percebi esse elemento transcendente, metaforizado da figura de Jesus Cristo: “Jesus foi quem me ficou”. Já o diálogo dele com a presença de Deus está cheio de ambiguidade, dúvida e incerteza. Inclusive sugere um desencontro: “de Deus me desperdi”.

Em relação a Jesus Cristo há uma espécie de incorporação metafórica dessa personagem bíblica à sua poesia por intermédio de sua fé na esperança, no bem, na bondade e no amor.

Claro, a maneira pela qual ele se refere a Jesus Cristo não é dogmática, mas simbólica: Jesus Cristo como metáfora do homem preocupado com o destino da humanidade: “com ele / me encontro comigo… / no coração a esperança”.

É interessante observar a postura dele ao longo da vida – como o fato dele usar o branco, um símbolo pessoal e poético – e veremos que o Thiago encarna a figura imagética de um Cristo contemporâneo, um Cristo imprecando contra o mundo, condenando as injustiças e, ao mesmo tempo, defendendo a esperança e o amor como caminhos para a redenção do ser humano.

É interessante ainda a maneira como ele se posiciona, como ele fala, como ele se coloca nos eventos públicos. É como se ele fosse um profeta do nosso tempo, um profeta da palavra, um profeta da poesia. Isso me chamou atenção e me chocou um pouco, porque não tinha me dado conta disso.

Foi o poeta Elson Farias quem me falou sobre a presença desse elemento religioso metaforizado na figura de Jesus Cristo.

Thiago de Mello, nesse caso, estaria invocando a compreensão de um Cristo revolucionário?

Não, no caso do Thiago, não. Deu para perceber a relação do poeta com Cristo, como um símbolo de elementos que lhes são caros, um Cristo como símbolo do sonho e da fraternidade.

Cristo, para o poeta Thiago, é uma referência social de insubmissão e irresignação diante das contingências da realidade, como se ele fundisse a sua própria figura à imagem profética do Filho de Deus.

Percebe-se que ele espelha essa imagem e compõe essa persona na sua vida social.

Penso que Thiago performa Jesus Cristo na sua atitude contra o mundo, na sua insubmissão, na sua rebeldia e, sobretudo, na sua mensagem, porque é surpreendente que a grande mensagem do Thiago termina sendo, também, uma metaforização da mensagem de Jesus Cristo: esperança, vida, a crença no ser humano, a confiança na amizade e, principalmente, a sua convicção de que o amor é o elemento redentor da humanidade.

O senhor também relaciona a poesia de Thiago de Mello ao poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843), para quem a poesia supera a política na sua versão de poder…

… Isso é verdade. Veja só: a literatura é um processo e está conectada a uma tradição, é uma palavra, um dizer sobre o mundo que se prolonga no tempo.
Então, o Thiago leu os grandes poetas metafísicos da Europa e, evidentemente, conhecia aqueles que trataram de temas relacionados à transcendência e ao divino e, sobretudo, Hölderlin, que considerava os poetas mais importantes que os políticos.
Ele entendia que os políticos, de modo geral, se perdiam nas suas ambições, nos seus interesses, nos seus conflitos. Na sede de poder. Normalmente, é o processo político que leva a humanidade a eventos destrutivos.

Hölderlin contrapunha o político ao poeta, que se manifesta como um profeta, como um sacerdote que ajudaria na educação do povo para uma outra política, não para um processo revolucionário. Mas para uma compreensão racional e estética do convívio humano.

O poeta como profeta ou sacerdote, para Hölderlin, iria educar o povo para a beleza, para o bem, para a espiritualidade, para uma reconexão do homem com a sua essência perdida, para uma reconexão do homem com a natureza.

Hölderlin via na natureza uma espécie de representação do divino. Acreditava que quando o homem se reconecta com a natureza, reencontra os sentidos da vida, harmonia interior e, portanto, se reencontraria com a sua própria essência.

Então, nesse sentido, o Thiago também vai personificar essa figura do poeta como um sacerdote.

A maneira como o Thiago se portava e se vestia era para se distinguir daquilo que estava normalizado, daquilo que estava vulgarizado. Quando chegava, ele era um poeta de branco e azul, performando, naquele momento, uma espécie de profeta, e a poesia, como palavra profética, chamava a atenção das pessoas que o ouviam. Nesses momentos, ele afirmava a necessidade da utopia, da esperança, do amor e da liberdade.

Esses eram os valores nos quais ele acreditava e, nesse sentido, o Thiago foi também um grande poeta profeta do nosso tempo.

E o entendimento de que ele era um poeta engajado na luta política?

O Thiago começa como um poeta metafísico, um poeta que aborda temas relacionados à subjetividade, à existência.

Mas, o poeta também está sujeito aos influxos e às contingências do seu tempo. No caso dele, a realidade vivida pela América Latina nos anos de 1960, em especial no Brasil com a ditadura partir de 1964, mudou radicalmente a percepção poética do Thiago; aquele poeta em princípio existencialista se vê profundamente preocupado com os problemas sociais e políticos da sua época.

A poesia dele reverbera o anseio de todo ser humano por liberdade, pela existência sem opressão, sem sofrimento e sem as imposições do poder.

Há esse lado social e político na poesia do Thiago que algumas pessoas denominam de engajamento. Diria que não há propriamente um engajamento, como definição estética. O que há é uma poética e um poeta consciente do seu papel no mundo, que viveu os grandes problemas do seu tempo, aos quais não se furtou de se posicionar.

Do ponto de vista poético, diria que é esse aspecto da política da sua poesia social que está metaforizado em duas palavras: utopia, como expectativa de um mundo melhor, e liberdade que, no Brasil, expressava o desejo de superação do momento de escuridão que o país vivia.

Isso ele diz muito bem no poema “Faz escuro, mas eu canto”, que é uma clara alusão à realidade política do país: a escuridão no sentido de que as pessoas tinham sido privadas da sua liberdade.

Então, a dimensão social e política, inclusive, se tornou o aspecto mais marcante e reconhecido na poesia do poeta. Vale destacar, entretanto, que sua produção criativa é um mosaico de temas, de questões, de sentidos sobre o mundo — expressos com beleza e maestria de linguagem.

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Fotos: acervo/Valer