Banco Master: o legado de Roberto Campos Neto no Banco Central

De acordo com o articulista, "colapso não foi um acidente. Foi um processo".

Banco Master: o legado de Roberto Campos Neto no Banco Central

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 30/03/2026 às 13:34 | Atualizado em: 30/03/2026 às 13:34

O colapso do banco Master não foi apenas mais um episódio de instabilidade bancária — foi o maior abalo já imposto ao Fundo Garantidor de Créditos.

As estimativas mais consistentes apontam para um impacto na ordem de R$ 50 bilhões a R$ 52 bilhões, com cerca de R$ 40 bilhões já desembolsados para cobrir depósitos garantidos.

Em termos práticos, isso significa que uma parcela relevante da poupança nacional foi mobilizada para cobrir o colapso de uma única instituição.

E há um agravante: investidores que ultrapassaram o limite de garantia enfrentam perdas efetivas — entre eles, recursos de regimes próprios de previdência (como a Amazonprev, vinculada ao Governo do Amazonas; o Rioprevidência; e fundos do Distrito Federal, sob a gestão do governo de Ibaneis Rocha), que alocaram recursos de aposentados e pensionistas em ativos de alto risco em busca de rentabilidade elevada.

São decisões tomadas no âmbito de governos estaduais e distrital que, em diferentes graus, mantêm alinhamento político com a agenda econômica que sustentou a indicação de Roberto Campos Neto.

O que está em jogo, portanto, não é apenas um erro bancário, mas uma cadeia de decisões públicas e privadas que expôs poupança popular e recursos previdenciários a um modelo claramente insustentável.

O colapso não foi um acidente. Foi um processo.

E, mais grave, um processo acompanhado de perto — e tolerado — durante a gestão de Roberto Campos Neto.

A nomeação de Roberto Campos Neto para o Banco Central não foi um evento técnico isolado. Foi uma decisão política do então presidente Jair Bolsonaro, que escolheu um nome alinhado à sua visão de mercado e de condução da política econômica.

A indicação, aprovada pelo Senado, inseriu no comando da autoridade monetária uma liderança cuja atuação, no caso banco Master, hoje define um legado que levanta questionamentos relevantes sobre os limites entre liberalização financeira e supervisão prudencial.

Não faltaram sinais. Não faltaram alertas. Não faltaram números.

O que faltou foi decisão.

Desde 2023, o banco Master passou a operar com um padrão de captação que, por si só, já deveria ter acionado mecanismos de contenção: CDB sendo ofertados de forma recorrente entre 140% e 160% do CDI, com picos ainda maiores em plataformas de investimento.

Enquanto grandes bancos pagavam entre 90% e 110% do CDI, o Master oferecia prêmios muito acima do mercado para atrair recursos. Em finanças, isso não é estratégia — é sinal de risco elevado.

E esse sinal não estava escondido. Estava disponível para qualquer analista, gestor ou regulador.

O mercado percebeu e reagiu. Gestoras como ESH Capital formalizaram alertas ao Banco Central, apontando riscos objetivos: crescimento acelerado, concentração em ativos de baixa liquidez e uso intensivo de estruturas complexas.

Casas de investimento passaram a recomendar explicitamente a seus clientes a não exposição aos títulos da instituição.

Ou seja: o sistema financeiro viu o problema antes do colapso.

O regulador, não.

Ou, mais precisamente, viu — e não agiu.

Sob Roberto Campos Neto, o Banco Central optou por acompanhar. E acompanhar, nesse contexto, significou permitir que um banco continuasse captando a taxas muito acima do mercado, ampliando sua base de passivos e, consequentemente, o tamanho do problema.

A comparação com outros episódios é inevitável. No caso do banco PanAmericano, a resposta foi rápida diante de inconsistências relevantes. No banco Cruzeiro do Sul, a deterioração levou a uma intervenção mais célere. No cenário internacional, como na quebra do Silicon Valley Bank, a reação das autoridades foi imediata quando o risco sistêmico se tornou evidente.

No caso banco Master, o que chama atenção não é o risco — mas o tempo concedido a ele.

E tempo, nesse tipo de operação, significa escala.

Escala de captação.
Escala de exposição.
Escala de prejuízo.

O resultado foi previsível: um banco que cresceu artificialmente, sustentado por remunerações fora do padrão, até atingir um ponto em que sua quebra deixou de ser um problema privado e passou a ser um problema sistêmico.

O impacto recaiu sobre todo o sistema financeiro e, de forma indireta, sobre a sociedade.

A cronologia é clara e não admite relativização:

  • o Banco Central, sob Roberto Campos Neto, viu CDB sendo ofertados a 140%–160% do CDI;
  • o Banco Central, sob Roberto Campos Neto, recebeu alertas formais e sinais evidentes;
  • o Banco Central, sob Roberto Campos Neto, não interrompeu o processo no momento crítico.

E quando interveio, o custo já estava consolidado em dezenas de bilhões.

O contraste com a atuação de Gabriel Galípolo expõe a diferença de postura. Foi sob sua gestão que operações potencialmente ampliadoras de risco foram barradas e que a liquidação do banco foi conduzida. A informação não mudou. O que mudou foi a disposição de agir.

O caso Master deixa uma lição incômoda: em determinados momentos, a ausência de regulação efetiva não é neutralidade — é uma escolha com consequências distributivas claras.

Ganhos concentrados no período de expansão.
Prejuízos socializados no momento da crise.

Em finanças, preços falam.

E um CDB a 160% do CDI fala alto.

No caso do banco Master, o mercado ouviu.

O regulador, sob Roberto Campos Neto, preferiu não responder.

E esse silêncio custou caro.

*O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil