A lei da gestação dos escândalos: por que bolsonaristas não podem fugir da realidade
"Meu amigo, você nasceu nove meses depois da relação dos seus pais. Então, por que insiste em dizer que os problemas de hoje não têm origem no governo passado?"
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 25/03/2026 às 10:08 | Atualizado em: 25/03/2026 às 10:08
Nos últimos dias, dois assuntos têm dominado as manchetes e as conversas de brasileiros preocupados com a saúde das instituições financeiras e a segurança da previdência social: a crise envolvendo o banco Master e o escândalo das fraudes no INSS.
Como era de se esperar, os bolsonaristas de plantão – tanto da grande mídia quanto os eleitores comuns nas redes sociais – já se mobilizam com um discurso previsível: “É culpa do governo Lula”.
A estratégia é antiga e desgastada, mas ainda eficaz para aqueles que preferem acreditar em versões convenientes da realidade.
No entanto, os fatos, como sempre, teimam em não cooperar com a narrativa. E é aqui que entra uma analogia simples, quase biológica, para explicar o que estamos vendo: a gestação.
Onde estava a semente do problema?
Fiz uma pergunta recentemente a um conhecido, eleitor declarado do bolsonarismo, e a mesma pergunta serve para todos que tentam empurrar a conta desses escândalos para o atual governo:
“Meu amigo, você veio ao mundo nove meses depois da relação dos seus pais, certo? O ato, o fato gerador da sua existência, ocorreu nove meses antes de você nascer. Então, por que você insiste em dizer que o que está acontecendo agora não tem relação com o que foi gestado no governo passado?”.
A pergunta é incômoda porque escancara uma verdade simples: os problemas não surgem do nada. Eles são gestados. No caso do banco Master, o crescimento exponencial da instituição não aconteceu por acaso. O banco se fortaleceu, expandiu suas operações e ganhou musculatura exatamente durante o governo de Jair Bolsonaro.
Mais do que isso: figuras hoje citadas no contexto da crise, como diretores do Banco Central que teriam relação com o esquema, foram nomeados por Bolsonaro.
O atual presidente do Banco Central, que vetou a fusão com o BRB e decretou a intervenção no Master, herdou uma instituição e um sistema financeiro que permitiram que o banco crescesse de forma, no mínimo, questionável nos quatro anos anteriores.
O “nascimento” da crise pode ter ocorrido agora, mas a “gestação” foi longa e ocorreu em um berço alheio.
O INSS e o “bebê” de Lorenzoni
O mesmo raciocínio se aplica ao caso das fraudes no INSS. Durante o governo Bolsonaro, a pasta da previdência foi comandada por figuras como o deputado Onyx Lorenzoni, que atuou como ministro.
Já naquela época, havia denúncias, relatos e indícios de que algo não cheirava bem nos sistemas de concessão de benefícios.
O que vemos agora, no governo Lula, é a explosão do caso. As investigações se aprofundaram, as fraudes bilionárias vieram à tona e os responsáveis estão sendo identificados. Mas, a estrutura que permitiu essas fraudes, a fragilidade nos controles, a “porteira aberta” – tudo isso foi gestado e se fortaleceu no governo anterior.
É curioso como os mesmos que pedem “investigação e punição” agora se calam sobre o fato de que o então ministro da pasta era um dos aliados mais próximos de Bolsonaro.
Onde estavam as denúncias naquela época?
Por que a “bomba” só foi descoberta agora?
Simples: porque estava no período de gestação. O “parto” ocorreu no governo Lula, mas a “concepção” foi em outro lugar.
A verdade factual não se dobra à narrativa
O discurso de que “tudo é culpa do governo Lula” é uma tentativa desesperada de criar um factóide, uma realidade paralela onde os problemas começam e terminam na gestão atual.
Contudo, a verdade factual é teimosa:
– O banco Master cresceu e se fortaleceu no governo Bolsonaro.
– Os diretores do Banco Central envolvidos na crise foram nomeados por Bolsonaro.
– As fraudes no INSS ocorreram e se consolidaram enquanto a pasta era comandada por aliados de Bolsonaro.
– As denúncias não foram devidamente investigadas à época.
Atribuir ao governo Lula a responsabilidade pelos escândalos que estão sendo descobertos agora é como dizer que uma criança é culpada por ter nascido, ignorando completamente o ato que a gerou nove meses antes.
Conclusão
Aos bolsonaristas de plantão que insistem em jogar a sujeira para debaixo do tapete alheio, fica o convite à reflexão: olhem para o fato gerador.
O Brasil não começou em janeiro de 2023. Os problemas que enfrentamos hoje são fruto de anos de má gestão, omissão e, em muitos casos, conivência.
O governo Lula tem a obrigação de investigar, punir e corrigir as distorções. E, ao que tudo indica, é exatamente isso que está sendo feito.
Todavia, a paternidade desses escândalos não pode ser negada.
Como na vida, o nascimento pode ser hoje, mas a concepção foi há nove meses.
E os registros, os fatos e a história não podem ser apagados para agradar a narrativa de quem prefere a mentira conveniente à verdade incômoda.
*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
