Avanço das facções criminosas na Amazônia vai muito além do narcotráfico

Facções ampliam domínio territorial e passam a usar a mesma logística para cocaína e exploração ilegal de recursos naturais

Da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 19/02/2026 às 09:43 | Atualizado em: 19/02/2026 às 09:43

A presença de facções criminosas na Amazônia Legal aumentou 32% em apenas um ano e chegou a 344 municípios em 2025. O avanço consolidou a região como a mais letal do Brasil, com taxa de homicídios 31% superior à média nacional, e evidencia uma mudança estrutural na atuação do crime organizado.

Antes concentradas no narcotráfico, as facções passaram a adotar um modelo descrito por especialistas como “maximização das ilegalidades”.

Na prática, trata-se da “sobreposição de ilícitos”: as mesmas rotas e estruturas logísticas são utilizadas para o tráfico de drogas, o garimpo clandestino, a grilagem e o desmatamento.

“Temos visto uma sobreposição do narcotráfico com a questão dos ilícitos ambientais”, afirma David Marques, coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Segundo ele, essa convergência permite ampliar receitas e fortalecer o domínio territorial.

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A engrenagem que une cocaína e ouro

A integração das atividades ilegais se expressa de forma direta na logística aérea.

“Aviões que transportam o ouro ilegalmente produzido também transportam cocaína”, exemplifica Marques.

O compartilhamento de aeronaves e rotas sintetiza a nova dinâmica: crimes ambientais e tráfico internacional operam dentro da mesma engrenagem.

Assim, o garimpo ilegal, o desmatamento e a grilagem deixam de ser atividades paralelas e passam a compor o núcleo financeiro das organizações. Facções como o Comando Vermelho ampliaram presença na região, consolidando áreas estratégicas em dois anos.

Impacto social e desafio à segurança

O avanço das facções também produz efeitos diretos sobre as comunidades locais. Houve intensificação do aliciamento de jovens indígenas, entre 12 e 16 anos, e o surgimento de “minicracolândias” em cidades de fronteira. Além disso, a violência sexual na região é 36,8% maior que a média nacional.

O custo para policiar a Amazônia pode ser até 25 vezes superior ao de áreas urbanas do Sudeste, o que evidencia a complexidade do enfrentamento. Para especialistas, segurança pública e desenvolvimento sustentável tornaram-se agendas indissociáveis.

“Não tem como falar sobre desenvolvimento sustentável na região amazônica sem levar em consideração a questão da segurança pública”, defende Marques.

A análise aponta que, na Amazônia, cocaína e ouro ilegal compartilham rotas, infraestrutura e território. A floresta tornou-se palco de uma estrutura criminosa integrada, que amplia a violência e aprofunda a devastação ambiental.

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Saiba mais na coluna Balanço Social da revista Veja.

Foto: Polícia Federal/divulgação