O trabalho para os Warao em Manaus

Desde que chegaram em Manaus, em 2016, os Warao trabalham em funções que exigem pouca fluência em português e baixa escolaridade – muitos não são alfabetizados

Os Warao em Manaus: 10 anos de emergência

Por Dassuem Nogueira

Publicado em: 12/02/2026 às 19:15 | Atualizado em: 12/02/2026 às 19:15

Os Warao, indígenas e refugiados venezuelanos, voltaram aos noticiários no fim de janeiro desse ano, após o Ministério Público Federal (MPF) acionar governo e prefeitura pela situação de risco social em que se encontram na cidade de Manaus.

A denúncia partiu da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), em 2023, e menciona a morte de, ao menos, uma criança menor de cinco anos por desnutrição, ou seja, por fome.
A perícia antropológica que subsidia a ação identificou falhas na cobertura de assistência social e crise humanitária.

Neste artigo, serão apontadas questões relacionadas ao modo como os Warao sustentam-se em Manaus e o atendimento dado pela assistência social, com base na tese “Do portão para dentro: etnografia do acesso dos Warao ao abrigamento e à saúde em Santarém (PA) e Manaus (AM)”, de minha autoria.

Na Venezuela

Na Venezuela, os Warao vivem em um vasto território no delta do rio Orinoco, entre comunidades e cidades da região. Não são um povo de tradição agricultora, embora tenham aprendido a cultivar e colher certos produtos com os missionários e com os não indígenas.

São exímios pescadores, coletores de caranguejo e construtores de canoa. Também caçam e coletam, especialmente, mel e buriti. Esta palmeira tem grande importância econômica e cultural para os Warao. Da fibra, fazem um artesanato único.

Desde o início do século passado, a região passou a ser alvo de empreendimentos estatais e privados, da agroindústria, petróleo e mineração, com fins de desenvolvimento econômico e social. A região é, até hoje, considerada, a menos desenvolvida da Venezuela.

Dinheiro

Esses empreendimentos impactaram seriamente o meio ambiente e a sociedade warao, limitaram a sua subsistência e promoveram a dependência monetária. Eles passaram a incluir as cidades como opção para conseguir dinheiro para sustentar-se. Em alguns casos, fixando-se nelas.

Para a maioria, a inserção laboral é limitada a trabalhos de baixa renda. As mulheres aprenderam a pedir dinheiro para compor o sustento familiar.

Em Manaus

Desde que chegaram em Manaus, em 2016, os Warao trabalham em funções que exigem pouca fluência em português e baixa escolaridade – muitos não são alfabetizados.

Os homens trabalham como estivadores em feiras, portos e fábricas, ajudantes de cozinha e de pedreiro, vigilantes de veículos, vendedores ambulantes, barbeiros, entre outros.

Eles costumam receber em diárias, em muitos casos, bem menos do que um brasileiro ou um venezuelano não indígena na mesma função.

Nesse contexto, o sustento familiar fica comprometido, mesmo quando há incremento vindo de programas e benefícios assistenciais.

Pedir dinheiro

As mulheres costumam trabalhar em casa nos afazeres domésticos e nos cuidados com as crianças. Porém, é comum que vão às ruas pedir dinheiro com vestidos coloridos, algumas vezes, carregando crianças de colo.

A prática é uma estratégia a qual recorrem desde a Venezuela. Teria iniciado no contexto de migração de uma região gravemente afetada por uma epidemia de cólera, no início dos anos de 1990, que gerou forte miséria entre eles.

A situação gerou comoção nos não indígenas que, espontaneamente, passaram a doar dinheiro às mulheres warao, sempre acompanhadas de suas crianças de colo. As mulheres passaram a organizar expedições às cidades para conseguir dinheiro.

Muitos warao não compreendem essa atividade como depreciativa, mas uma parte delas sim. Porém, muitas vezes, essa é a principal fonte da renda familiar.

As crianças

Para grande parte dos povos indígenas, as crianças participam desde pequenas de todas as atividades dos adultos, pois é assim que aprendem a ser indígenas de determinada etnia.

Embora as mulheres warao não ignorem que a presença das crianças de colo causa maior comoção nos não indígenas, elas não estão explorando suas crianças, como comumente interpretam os conselhos tutelares, profissionais da assistência social e sociedade de modo geral.

Se estão em meio à atividade de pedir dinheiro é porque seguem as atividades dos adultos, aprendendo a ser Warao. Se as crianças estão em uma atividade de risco social, é porque os adultos estão.

Assistência Social

O acesso à cidadania dos Warao se dá pela política de assistência social, executada por meio das secretarias estaduais e municipais. Em dez anos, o abrigamento foi a única política especificamente direcionada para eles.

Nos abrigos, os Warao recebiam apoio para regularização documental, necessária para acessar trabalho, assim como programas e benefícios sociais. O objetivo era, a partir disso, promover a autonomia econômica e social.

Frustração

Os protocolos para promoção de autonomia aplicados ao público geral, não são eficazes para os Warao, que têm condições culturais e sociais específicas.

Há muitas barreiras a serem superadas. Por exemplo, só para que consigam frequentar os cursos profissionalizantes que lhes permitam trabalhos melhores, há a questão do idioma, da alfabetização, da inserção educacional na rede local, da validação da escolaridade anterior.

Por fim, os Warao passavam mais tempo do que o esperado nos abrigos sem condições financeiras de manterem-se fora deles.

A situação gerava frustração em muitos gestores locais, que atribuem o fracasso da política à cultura indígena dos Warao.

Artesanato

Tentando estimular uma prática indígena como vocação econômica, durante a Operação Acolhida em Manaus (2019-2023), houve projetos que tentaram estimular a fabricação e a venda de artesanato, cuja maioria das peças é feita pelas mulheres.

Porém, a atividade não conseguia fazer com que elas abandonassem completamente a prática de pedir dinheiro.

Vendendo artesanato, elas obtêm dinheiro, mas apenas eventualmente. O que não é suficiente para suprir as necessidades diárias de alimentação.

Além disso, tem dificuldades de acessar a fibra do buriti na cidade de Manaus. Muitas vezes, a fibra vem em novelos trazidos por parentes da Venezuela.

Investimento em vão

Por fim, considera-se que os Warao não são trabalhadores prontos para entrar no mercado de trabalho, e, por isso, requerem estratégias de longa duração, como resolução da baixa escolaridade.

Além disso, a alta mobilidade dos Warao entre as cidades, especialmente, nos primeiros anos de sua chegada, e os relatos sobre as expedições das mulheres às cidades em busca de dinheiro na Venezuela, levou a crer que essa fosse uma característica cultural sua.

Ao ser considerada parte de sua cultura, a alta mobilidade passou a ser interpretada como uma barreira insuperável. E, portanto, pensar em políticas específicas para os Warao é considerado como um investimento em vão.

Nômades

Os Warao chegaram a ser considerados nômades. Mas não são. A alta mobilidade inicial entre as cidades brasileiras foi um movimento de exploração das cidades brasileiras.

Foram cada vez mais longe da fronteira, principalmente, em busca de apoio institucional e da sociedade brasileira, já que estavam disputando recursos insuficientes com os demais venezuelanos nas cidades roraimenses de Boa Vista e Pacaraima.

Atualmente, percebe-se que parte deles fixou-se em comunidades nas cidades brasileiras. Mas a maior parte da população está em Roraima, Amazonas e Pará, de onde podem ir e voltar para a Venezuela com menos dificuldade.

Nota-se que seguem se movimentando entre as cidades onde tem parentes para visitar, já que as existências indígenas são coletivas.

A situação dos Warao na maioria das cidades é semelhante a Manaus. E nem todas ofertam abrigos públicos.

A autora é doutora em antropologia.

Foto: Felipe Irnaldo/ACNUR