Como a Europa acelera fim do monopólio americano no dinheiro digital
A criação do Wero expõe a disputa por soberania monetária e coloca a União Europeia em rota de colisão com o domínio de Visa e Mastercard, pilares do poder financeiro dos Estados Unidos.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 12/02/2026 às 10:16 | Atualizado em: 12/02/2026 às 10:16
O alerta do Banco Central Europeu não foi apenas técnico — foi político. Ao acelerar a criação de um sistema próprio de pagamentos digitais, com o Wero, a Europa entra em uma frente sensível que há décadas permanecia intocada: o domínio absoluto das redes americanas sobre o fluxo financeiro global.
São US$ 24 trilhões processados anualmente por Visa e Mastercard que agora entram na mira de uma estratégia continental.
Não se trata apenas de conveniência ou inovação. Trata-se de jurisdição, soberania de dados e, acima de tudo, de poder.
Os Estados Unidos sustentaram sua hegemonia no pós-guerra sobre dois pilares: o dólar como moeda de reserva internacional — cumprindo as três funções clássicas da moeda definidas por Keynes — e o poder militar, com seu arsenal nuclear.
O mundo inteiro, do Ocidente ao Oriente, do Norte ao Sul global, opera sob essa arquitetura.
Romper esse ciclo exige mais que tanques e ogivas. Exige a desconstrução do monopólio monetário e financeiro.
A Europa, com o euro já consolidado, agora ataca o elo seguinte: o domínio dos instrumentos digitais de pagamento.
Visa e Mastercard são o braço capilar do dólar no cotidiano das pessoas. Retirá-las da rota é golpear o soft power americano onde ele mais dói: no bolso e no controle dos dados.
Nesse movimento, a União Europeia olha para o espelho dos Brics. O bloco, que já avança na criação de mecanismos próprios de liquidação e moedas digitais soberanas, tornou-se referência.
A mensagem é clara : se queremos um mundo multipolar, é preciso construir alternativas concretas, moeda por moeda, transação por transação.
O Wero não é apenas um sistema de pagamentos. É uma declaração. Uma demonstração de que o bastão da hegemonia financeira pode, finalmente, mudar de mãos.
*O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
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