Diplomatique destaca autores locais à interpretação da Amazônia

Pesquisadores Marilene Corrêa e Frederico Krüger estão entre os autores citados pela revista francesa para compreensão do pensamento amazônico

Pesquisadores Marilene Corrêa e Frederico Krüger

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 02/02/2026 às 04:34 | Atualizado em: 02/02/2026 às 04:46

A revista Le Monde Diplomatique Brasil, vinculada ao grupo de mídia francês Le Monde, publicou, em 23/1, uma indicação de leituras necessárias aos estudos introdutórios à compreensão da Amazônia contemporânea. Das sete obras mencionadas no artigo, cinco foram publicadas pela Editora Valer.

São elas:

Metamorfoses da Amazônia (Marilene Corrêa)

A viagem das ideias (Renan Freitas Pinto)

Amazônia colônia do Brasil (Violeta Loureiro)

Amazônia: mito e literatura (Frederico Krüger)

A invenção da Amazônia (Neide Gondim)

As outras duas são: Além da conquista: guerras e rebeliões na Amazônia pombalina (Francisco Jorge dos Santos, Edua), e Amazônia: do período pré-colombiano aos desafios do século XXI (Marcio Souza, Record).

O autor da reportagem é Ricardo Kaate Lima. Ele é doutor em Ciências Sociais (Unesp), autor de A Lança de Anhangá (Cachalote, 2024) e vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022).

Os sete livros ajudam na introdução aos estudos de temas como o capitalismo internacional, o movimento indígena, a cosmologia ancestral, a colonização, a devastação ambiental, a relação entre ideias e sociedade e o colonialismo interno.

Influências forasteiras

O autor constatou, em seus quase vinte anos de estudos sobre a região, que os intérpretes da Amazônia continuam a ser cronistas, forasteiros, religiosos, naturalistas e pensadores sociais vindos de outras regiões do País.

Inteligência amazônica

No entanto, a inteligência amazônica, aponta Lima, produz ensaios, teses e estudos sobre a dinâmica regional, os quais são esquecidos ou colocando em segundo plano na política de interpretação do País como um todo.

Acesse a LMDB.

Pertencimento

A socióloga Marilene Corrêa disse que ficou honrada por estar ao lado de outros pesquisadores e autores que moram e produzem conhecimento na Amazônia.

“Então, tem uma condição de pertencimento muito diferente da de reconhecimento, que é outro patamar de inteligência e, consequentemente, de expressão daquilo que somos e queremos ser.”

Ela explica que Metamorfoses da Amazônia compõe a lista porque faz o recorte de um momento importante dos anos de 1990. Marilene situa-o nos processos de mundialização estavam muito claros nos planos da cultura, da política e da economia.

“Esses recortes são importantes porque eles nos ajudam a entender que, em determinados momentos, são umas variáveis e não outras que fazem conexão da Amazônia com o mundo”, disse

Marilene corrêa.

Ela lembra que no momento que publicou Metamorfoses amazônicas eram o capital internacional e a problemática indígena os “temas obrigatórios”. Muitos processos sobrevivem àquela fase aguda e tornaram a se expressar com mais veemência nas pautadas na COP-30, realizada em Belém (PA), em novembro do ano passado.

“Todos sabemos que o debate que houve com as terras indígenas, a questão do pertencimento das nacionalidades indígenas, com as novas teses sobre a autodeterminação. E essas coisas vão se reconstituindo de acordo com novas leituras, com novas contribuições e com novas fontes de pesquisa”, acentuou a pesquisadora.

Capacidade interpretativa

Para Marilene, a revista reafirma que a inteligência amazônica é produtora da sua própria capacidade interpretativa, a dimensão que o protagonismo se revela.

“Estar na condição de intérprete é estar também assumindo a responsabilidade por diversos fios de análise, por determinados recortes da história pelos quais vamos enfatizar a nossa condição de hoje e de futuro”.

Marilene Corrêa.

Nesse sentido, a socióloga pontua ser muito difícil o Brasil fazer qualquer plano de futuro sem incluir a Amazônia.

“É isso que penso como uma intérprete autônoma, a partir de uma voz daqui da região”, afirmou.

Surpresa

Frederico Krüger revelou que ficou surpreso com a citação do seu livro na reportagem da Le Monde Diplomatique Brasil. Sobretudo, acrescentou, porque se trata de uma publicação feita há mais de 20 anos, embora continue atual.

“Parecia um livro esquecido!”, reagiu o escritor.

Para o autor, a indicação do livro nas páginas de uma revista respeitada em várias camadas de leitores mostra que Amazônia: mito e literatura pode contribuir com a compreensão da região em profundidade.

“O livro apresenta, sob a minha ótica, a mitologia dos indígenas Desânas, a partir do livro Antes o Mundo Não Existia (escrito por Luiz Lana e Firmiano Lana, também publicado pela Valer) e de como essa mitologia do alto rio Negro foi aproveitada pelo Márcio Souza (escritor e dramaturgo) em seu teatro indígena”, explicou Krüger.

Krüger identifica os movimentos de transição que se dão entre lendas, mitologia e o teatro de Márcio Souza, fenômenos importantes na formação do pensamento amazônico contemporâneo.

Voz do editor

O editor da Valer, jornalista Isaac Maciel, recebeu “com satisfação” a conquista do reconhecimento pela edição da maioria dos livros citados pela Le Monde Diplomatic Brasil.

“A Valer nasceu em Manaus e tem como slogan Editando as Amazônias. Nosso objetivo é editar e divulgar os autores da Amazônia brasileira e internacional que têm compromisso com a interpretação da região a partir de um olhar local”, afirmou Isaac.

Em trinta anos de atividade, a Valer publicou ao menos 2 mil títulos. A maioria da obras dá ênfase em temas amazônicos, seja na poesia, prosa, filosofia, pesquisa científica, ensaios e literatura indígena.

Isaac lembra que Márcio Souza, também citado com uma publicação pela Record, a qual também publicada pela Valer, está no portifólio da editora com várias obras. Pondem-se citar Ajuricaba: o caudilho das selvas, A caligrafia de Deus e A expressão amazonense.

Ele assinala que a editora resgatou textos sumidos do mercado há mais de um século, ao mesmo tempo que recepcionou autores contemporâneos.

“Retornando trinta anos atrás, constataremos que os professores amazonenses, pela dificuldade de encontrar os textos em edições publicadas, usavam fragmentos mimeografados e xerocopiados dos livros para ministrar aulas sobre a Amazônia. Atualmente, há centenas de obras disponíveis sobre o tema”, salienta Maciel.

Fotos: Divulgação