Organizações acusam Exército de matar jovem indígena no Alto Rio Negro

Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) prepara relatório e pede investigação do caso

Organizações acusam Exército de matar jovem indígena no Alto Rio Negro

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 23/01/2026 às 06:54 | Atualizado em: 23/01/2026 às 06:54

Entidades representativas dos povos originários e lideranças do Alto Rio Negro cobram explicações e uma investigação rigorosa sobre a morte do jovem indígena Sandro Barreto Andrade. Sandro era cidadão brasileiro de 19 anos de idade e pertencia ao povo hupda. Essa etnia tem recente contato com outras sociedades.

O jovem foi encontrado morto após intenso tiroteio, segundo eles, protagonizado por militares do Exército Brasileiro na região do rio Papuri. Esse lugar fica em São Gabriel da Cachoeira, fronteira do Amazonas com a Colômbia.

O caso, que envolve acusações graves contra o 1º Pelotão Especial de Fronteira (PEF), gerou tensão na região da Cabeça do Cachorro. Segundo relatos colhidos por organizações indígenas, o confronto aconteceu na noite do dia 8 de janeiro. Os hupdas relatam disparos desproporcionais contra um grupo que apenas pescava no local.

Apesar de ter acontecido há 15 dias e tratar de uma grave acusação contra o Exército brasileiro, o caso só veio a público nesta sexta-feira, 23. Ele surge na mídia nacional, em reportagem que saiu nesta madrugada no site da Folha de S.Paulo. O autor da reportagem é o jornalista Vinicius Sassine, correspondente da Folha, na Amazônia.

Ocorrência e relato de “rajadas”

De acordo com testemunhas e lideranças locais, foram recolhidas no local do incidente 52 cápsulas de fuzil e duas de revólver. O material foi entregue às equipes responsáveis pela apuração.

A versão das comunidades indígenas aponta que quatro indígenas hupda — povo de recente contato e de extrema vulnerabilidade social — estavam divididos em duas duplas pescando na foz do rio Papuri. Relatos indicam que os disparos partiram do lado brasileiro, atingindo o grupo.

Enquanto dois conseguiram fugir, Sandro foi encontrado morto dois dias depois por moradores locais. Um segundo indígena foi encontrado ferido por militares no dia seguinte ao tiroteio e transferido para Manaus, onde segue internado em estado estável.

A versão do Exército

Segundo a reportagem, o Comando Militar da Amazônia (CMA) nega que os disparos tenham sido direcionados intencionalmente aos indígenas e classifica a ação como “legítima defesa a injusta agressão”.

Segundo a nota oficial, a tropa realizava um patrulhamento de rotina por volta das 22h30 quando interceptou quatro embarcações suspeitas de tráfico de drogas, que trafegavam no sentido Colômbia-Brasil. O Exército afirma que houve troca de tiros e que os “agressores” fugiram. A força militar sustenta que é incorreto afirmar que os militares balearam os indígenas, sugerindo que as vítimas foram encontradas posteriormente na área do confronto.

Mobilização e pedido de justiça

A Folha noticia que a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), principal entidade representativa da região, está elaborando um relatório detalhado sobre o episódio. O documento será encaminhado à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e ao Ministério Público Federal (MPF), formalizando o pedido de investigação sobre a conduta dos militares e as circunstâncias da morte de Sandro.

Lideranças locais também criticaram a demora do Exército na remoção do corpo do jovem e o tratamento dado ao caso.

O BNC fez contato o CMA e espera resposta.

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Foto: reprodução/trailer oficial – documentário O Contato