Livros abandonados revelam desperdício e descaso em Nhamundá
Material didático novo apodrece em obra abandonada; MP-AM apura falha grave da prefeitura e omissão do estado.
Da Redação do BNC Amazonas*
Publicado em: 15/01/2026 às 13:02 | Atualizado em: 15/01/2026 às 14:18
O abandono de material didático novo, comprado com dinheiro público, expôs uma grave falha de gestão educacional em Nhamundá, no leste do Amazonas.
Durante inspeção em uma obra inacabada da antiga escola estadual Gilberto Mestrinho, o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) encontrou livros ainda embalados, destinados ao ano letivo de 2025, armazenados de forma precária e sem qualquer controle, em um prédio deteriorado e sem uso educacional.
Os materiais pertencem à rede municipal de ensino e deveriam estar em sala de aula, especialmente em escolas da zona rural.
Em vez disso, foram deixados em um imóvel abandonado, sem condições mínimas de conservação, revelando descaso com o patrimônio público e com o direito básico à educação.
Obra abandonada virou símbolo da má gestão
A escola integra o convênio 56/2012, firmado entre a Secretaria de Educação do Amazonas (Seduc) e a Prefeitura de Nhamundá.
A reforma nunca foi concluída, a unidade não chegou a funcionar após o início das obras e o prédio entrou em avançado estado de deterioração.
Mesmo assim, passou a ser usado como depósito improvisado, sem autorização clara, sem inventário e sem transparência.
A ausência de documentação técnica impediu, inclusive, a verificação de quais serviços foram executados e como os recursos do convênio foram aplicados.
O cenário revela não apenas abandono físico, mas descontrole administrativo.
Desperdício onde falta quase tudo
O caso é ainda mais grave quando se considera a realidade educacional do interior do Amazonas.
O estado convive com índices elevados de distorção idade-série, sobretudo em áreas rurais e ribeirinhas, onde milhares de estudantes acumulam atraso escolar por falta de estrutura, transporte e políticas educacionais consistentes.
Nesse contexto, o desperdício de livros didáticos não é um detalhe administrativo: é a negação concreta de um direito fundamental.
Municípios com indicadores educacionais frágeis não podem se dar ao luxo de perder, inutilizar ou abandonar materiais essenciais ao processo de ensino e aprendizagem.
Prefeitura falhou no mínimo esperado
Armazenar corretamente o material escolar é o mínimo que se espera de uma gestão pública responsável. A não distribuição dos livros em tempo oportuno, somada ao abandono em local impróprio, indica falha grave na condução da política educacional municipal e potencial prejuízo ao erário.
Para a promotora de Justiça Ana Carolina Vasconcelos, a situação afronta o direito à educação e exige apuração rigorosa sobre as circunstâncias da aquisição, guarda e não entrega dos materiais aos alunos.
Estado também é cobrado pela omissão
O Ministério Público também cobrou explicações da Seduc.
A pasta terá de informar se há previsão de retomada da obra, qual o planejamento para conclusão ou destinação do imóvel e se houve autorização para o uso do prédio como depósito.
A falta de fiscalização da secretaria contribuiu para que um bem público se transformasse em espaço de abandono, permitindo que recursos educacionais fossem expostos a risco de perda sem qualquer ação preventiva.
Apuração e responsabilização
A Prefeitura de Nhamundá terá 15 dias para explicar quem autorizou o armazenamento do material no local, apresentar inventário completo e informar se houve perdas ou inutilização.
O Ministério Público apura eventual prejuízo ao erário e responsabilidades administrativas.
O caso expõe mais do que um erro pontual: revela uma cultura de descaso com o dinheiro público e com a educação em um município que precisa, mais do que nunca, transformar cada investimento em oportunidade real para sua gente.
Esse abandono não fica só no papel, ele atravessa rios e comunidades e atinge em cheio estudantes da Amazônia, como mostra esta reportagem.
*Com informações do MP.
Foto: MP/divulgação
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