3 anos do 8 de Janeiro: Manaus foi peça-chave de Bolsonaro no plano de golpe
Investigações e condenações no STF revelam que Manaus foi importante na articulação antidemocrática, com envolvimento direto de militares.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 08/01/2026 às 10:43 | Atualizado em: 08/01/2026 às 10:53
A capital amazonense não foi apenas um cenário de manifestações, mas um centro logístico de resistência ao resultado das urnas. O acampamento instalado em frente ao Comando Militar da Amazônia (CMA), na Ponta Negra, em Manaus, destacou-se pela infraestrutura robusta, financiada supostamente por empresários locais.
Relatos e investigações apontam para a promoção de “churrascadas” permanentes, destinadas a manter a mobilização ativa por meses.

Contudo, a organização contrastava com o desrespeito ao patrimônio público.
A frente do quartel-general foi transformada em latrina pelos golpistas, gerando um cenário de degradação urbana sob a vigilância e, em muitos casos, a cumplicidade dos próprios militares.
O silêncio das autoridades do CMA durante a ocupação é apontado como um dos fatores que encorajaram o avanço do sentimento golpista na região.
O elo tenente-coronel Hélio Ferreira
Um dos fatos mais contundentes da participação amazonense no plano de ruptura democrática é o caso do tenente-coronel Hélio Ferreira.
O militar guardava em suas dependências, no próprio CMA, documentos que detalhavam as etapas para a execução do golpe de Estado de Bolsonaro.
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Hélio Ferreira recebeu do STF a condenação mais alta entre os militares envolvidos, ficando atrás apenas da sentença aplicada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o que evidencia sua relevância na hierarquia da conspiração.
A conexão dos generais com a Amazônia
A influência do Amazonas no alto comando do governo Bolsonaro não era coincidência.
Grande parte da cúpula militar condenada sob o comando de Bolsonaro teve passagens marcantes pelo Comando Militar da Amazônia (CMA).
Generais como Augusto Heleno e Paulo Sérgio Oliveira utilizaram o prestígio e a rede de contatos construída no estado para articular o apoio das tropas à tese de intervenção.
O general Estevam Theóphilo também foi denunciado, mas acabou absolvido pelo STF por falta de provas de execução.
Apoio de Manaus versus abandono por Bolsonaro
Desde 2018, Manaus consolidou-se como um dos maiores redutos do bolsonarismo no país.
A cidade foi palco de megacomícios e motociatas de Bolsonaro que arrastavam multidões, alimentando uma base eleitoral fiel.
Entretanto, a gestão de Bolsonaro, Paulo Guedes, Hamilton Mourão, Ricardo Salles e outros confronta o entusiasmo das ruas.
Durante os quatro anos de mandato, Bolsonaro não entregou nenhuma obra de relevância no Amazonas.
Pelo contrário, o governo federal atuou sistematicamente para reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e ferir de morte a competitividade da Zona Franca de Manaus (ZFM).
Para tanto, Bolsonaro plantou na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) seu compadre e apadrinhado político Alfredo Menezes Júnior. Este logo tratou de militarizar a gestão da autarquia mais importante da região Norte com colegas reservistas do Exército.
O modelo ZFM, essencial para a preservação da floresta e para a economia do Amazonas e da região Norte, viveu, portanto, sob constante ameaça de quem recebia os maiores índices de aprovação na capital.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
