Exploração do petróleo venezuelano impactará outra vez os waraos

Trata-se da maior reserva certificada do mundo que, em razão da geopolítica internacional, era comercializada com países antagonistas aos EUA

Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 07/01/2026 às 19:38 | Atualizado em: 08/01/2026 às 05:38

O sequestro do ditador Nicolás Maduro, que então ocupava o posto de presidente da Venezuela, ocorreu na madrugada do dia 3 de janeiro deste ano, em Caracas, capital do país, sob o pretexto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de combate ao tráfico internacional de drogas.

Contudo, Trump fala abertamente na tomada estratégica do comando da exploração do petróleo venezuelano. 

Trata-se da maior reserva certificada do mundo que, em razão da geopolítica internacional, era comercializada com países antagonistas aos EUA, como China, Rússia, Cuba e Irã.

Há quatro campos de exploração de petróleo na Venezuela. A atividade em um deles, La Ladera - Los Playones, já havia impactado, na década de 90, o território do povo warao, habitantes do delta do rio Orinoco.

Atualmente, os waraos são a maior população indígena refugiada do Brasil, estimada em 11 mil pessoas. Sua população total seria de 46 mil, a segunda maior da Venezuela. 

A “administração” estadunidense do petróleo venezuelano poderá provocar uma nova onda de sortilégios para os waraos deltanos. E, consequentemente, um aumento do fluxo migratório estabelecido com o Brasil a partir de 2014. 

A crise humanitária gerada pelo agravamento da crise política e econômica que levou ao desabastecimento e aumento da violência, trouxe os waraos e, pelo menos, mais quatro etnias (wayuu, eñepa, karina e pemon) ao país, além, dos venezuelanos não indígenas.

Habitantes originários

Os waraos ocupam a região do delta do rio Orinoco há, pelo menos, 8 mil anos.

Eles são citados nas primeiras narrativas dos espanhóis, que com eles estabeleceram os primeiros contatos.

Foi com os waraos que os colonizadores aprenderam o nome Orinoco, que tem origem na expressão, wirinoko, que significa “lugar onde remamos”.

Um dos subgrupos waraos, registrados pelos primeiros colonizadores como siawani (chaguanes), desenvolveram, notavelmente, as habilidades de construir e remar em canoas monóxilas (feitas em uma única peça de madeira) com excelente capacidade de navegação no mar do Caribe.

Os outros povos lhes chamavam de “o povo da canoa”, significado que os colonizadores estenderam a todos os outros subgrupos da etnia. E, atualmente, é como os waraos traduzem o seu nome, pelo menos, no Brasil.

Hoje eles vivem na região que compreende o estado do Delta Amacuro, mas também vivem em Monagas e Sucre.

Além da Venezuela, os waraos também estão na República Cooperativa da Guiana e no Suriname (ambos de ocupação antiga) e, desde 2014, estão no Brasil, de onde empreenderam caminhos para o Peru, Bolívia e Argentina.

A origem do rio

O rio Orinoco nasce na serra Parima, maciço rochoso que faz a divisa entre o oeste de Roraima e o sul da Venezuela, no planalto das Guianas.

É um dos mais importantes rios da Pan-Amazônia, o principal afluente do rio Negro.

O delta do Orinoco, território dos waraos, desagua no Caribe venezuelano em frente a Trinidad Tobago.

O delta é composto por denso interflúvio e várias ilhotas. Os braços de rio que derivam do curso principal do Orinoco são chamados de caños.

Os caños Mañamo e Macareo e o río Grande foram os mais utilizados para entrar e sair do interior da Venezuela no período colonial. O Orinoco atravessa toda a Venezuela.

Proteção aos indígenas

Não há na Venezuela uma política de proteção de territórios indígenas ou direitos diferenciados para eles, como no Brasil.

Mesmo após a criação dos primeiros tratados internacionais terem sido adotados como referência de proteção jurídica para os povos indígenas – como a Convenção 169 da OIT (1989) e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007) – os impactos das diversas incursões capitalistas e estatais foram agressivos sobre o território warao.

É o caso da chegada das petroleiras na década de 90 do século 20.

O Ministério Popular de los Pueblos Indígenas foi criado em 2007, no governo de Hugo Chavez, mas não conseguiu o efeito de atender, satisfatoriamente, suas demandas.

Impactos no território warao

Até hoje, a região do delta do Orinoco é considerada a menos desenvolvida do país.

Na história recente da Venezuela, diversos planos de desenvolvimento foram colocados em prática sob o argumento de desenvolvê-la.

O caño Mañamo foi represado, na década de 60, para levar a cabo um projeto de desenvolvimento agrícola e a construção de uma estrada-dique para ligar a capital do estado Delta Amacuro, Tucupita, por estrada, às demais regiões.
Tornou-se um dos mais importantes marcos de reordenamento da territorialidade warao, levando-os a buscar as cidades como novo local de moradia fixa ou como fontes de sustento, como trabalho ou pedir doações.

Ao longo do século passado, outros tipos de exploração se estabeleceram no território warao, contribuindo para que suas vidas no delta se tornassem cada vez mais difíceis.

Tais como a expansão agrícola por fazendeiros, a exploração por empresas pesqueiras nas comunidades do litoral ocidental, a exploração de empresas de extração de palmito, arroz e da indústria madeireira que utilizaram mão de obra barata e os expulsavam de suas terras.

A chegada das petroleiras

Um marco importante com impactos socioambientais de grandes proporções foi o estabelecimento da exploração privado/pública de petróleo na região do delta, em 1990.

A chamada faixa petrolífera do Orinoco é a maior reserva certificada do mundo, equivale a 75% das reservas venezuelanas com quatro campos de exploração.

No estado Delta Amacuro, a atividade se concentra no município de Pedernales, onde a maior parte da população é warao.

Sozinho, esse campo (La Ladera – Los Playones) produzia o equivalente a toda a produção do Equador. Contudo, a exploração petroleira impactou seriamente as comunidades.
Uma comissão parlamentar foi até os waraos averiguar denúncias:

⁠“Para os indígenas waraos, segundo os depoimentos coletados pela comissão, a presença da indústria petrolífera perturbou a harmonia e o ambiente natural do delta do Orinoco, prejudicando o acesso a seus locais sagrados, perturbando comunidades antes isoladas, contaminando habitats e recursos naturais associados à sobrevivência de grupos ancestrais, introduzindo novas doenças, como o HIV, e proliferando doenças venéreas, tuberculose e outras. Denunciaram, inclusive, a ocorrência de abusos e violência sexual contra crianças e mulheres indígenas por trabalhadores de companhias petrolíferas, a compra de meninas para a prostituição, o consumo de bebidas alcoólicas e de drogas. Os padrões culturais, os padrões tradicionais de assentamento, o modo tradicional de agricultura e a alimentação, bem como o uso de recursos etnobotânicos para o tratamento de doenças, foram alterados. Seus territórios foram invadidos por instalações das petrolíferas, causando a migração para as cidades”, (Bustamante; Scarton, 1999 apud Rosa, 2021, p. 91).

Arco mineiro do Orinoco

À oeste, o território warao é assombrado pela exploração do petróleo e, ao sul, pela mineração.

A região do rio Orinoco é rica em minérios de alto valor econômico. Já no final do século 19, foi descoberta como fonte de ouro, na região de El Callao, próximo a Puerto Ordaz, onde as primeiras empresas inglesas instalaram-se para a exploração.

Após a queda dos preços, as empresas se retiraram, mas criaram uma cultura mineira (ou garimpeira).

Empresas nacionais e estatais buscaram e abriram mais veios de ouro, provocando grandes impactos socioambientais, expulsando os indígenas e atraindo garimpeiros dos países vizinhos.

O chamado “Arco Mineiro do Orinoco” (AMO), foi criado no fim do governo de Hugo Chavez, em 2011, para nacionalizar a produção. Mas, não foi adiante.

Em 2016, foi retomado pelo governo Maduro, que aprovou a exploração em uma área de 112 mil quilômetros quadrados.

Foi apresentado por ele como zona de desenvolvimento estratégico, com exploração de ouro, diamantes, coltan, caulim, dolomita e outros metais raros e estratégicos.

A autorização controversa da exploração mineral na região era uma resposta à crise que transbordava para os países vizinhos por meio do aumento da saída massiva de venezuelanos pelas fronteiras terrestres com Brasil e Colômbia naquele ano.

A vida nas cidades

A literatura sobre os waraos na Venezuela aponta que a deterioração de suas condições de vida em diferentes contextos históricos e regiões do delta do rio Orinoco vem provocando, ao longo do tempo, idas temporárias ou definitivas para os centros urbanos, onde há gerações de famílias nascidas e criadas nas cidades, especialmente, em Tucupita, Antônio Diaz, Barrancas e Pedernales.

A miserabilização de suas comunidades, a inserção limitada ao mercado de trabalho e à moradia são influenciados por fatores como falar o idioma castelhano, grau de instrução e necessidades econômicas específicas.

Nas cidades venezuelanas, a presença warao é marcada pela prestação de serviços que não exigem qualificação, entre os quais, o de catadores de materiais recicláveis em lixões; prostituição; e pela prática de pedir dinheiro e doações.

Tal situação se assemelha ao que ocorre no Brasil, embora a prostituição não tenha sido observada.

Estratégia

Estar nas cidades venezuelanas e deslocando-se entre elas e suas comunidades em busca de dinheiro para sustentar-se, física e culturalmente, não é uma característica cultural sua, mas uma estratégia possível que os waraos encontraram para lidar com as transformações impostas pela empreitada colonial e capitalista sobre seu território e modos de vida ao longo dos anos.

Dentre as possibilidades do viver, há a inclusão de espaços urbanos que então passaram a ser importantes fontes de recursos por meio do trabalho dos homens e das arrecadações de dinheiro feitas pelas mulheres.

Temor pelas consequências

Preocupa que a exploração petrolífera, ao que tudo indica, passará a ser realizada por empresas estadunidenses, levando uma nova onda de trabalhadores, possivelmente, daquele país, ao território.

A história dos empreendimentos coloniais, estatais e capitalistas sobre o território warao mostra que as consequências são desastrosas.

A história das ocupações estadunidenses pelo mundo, mostra que essa é uma ação repleta de violência.

Atualmente, os waraos têm encontrado na migração para o Brasil uma possibilidade de sustentar os que vem e os que ficam na Venezuela.

Sem que, contudo, o país tenha criado um plano de ação para a recepção desses refugiados indígenas, cuja dificuldade de inserção em políticas educacionais, laborais e de moradia seguem sem superação.

*Com trechos da tese da autora de “Do portão para dentro: etnografia do acesso dos Warao ao abrigamento e à saúde em Santarém (PA) e Manaus (AM), 2025”.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil