Ismael Tariano edita ebook de contos e ensina que ‘ninguém vive sozinho’

Contos do Tariano ensina sobre solidariedade, amor, amizade, justiça, paz, preservação da natureza e outros valores necessários à melhor compreensão da vida

Ismael Tariano Foto: Wilson Nogueira/BNC Amazonas

Wilson Nogueira, do BNC Amazonas

Publicado em: 26/12/2025 às 05:08 | Atualizado em: 26/12/2025 às 05:15

Conhecimentos e saberes do povo indígena Tariano estão à disposição dos leitores de língua portuguesa, por meio do ebook Contos do Tariano. A obra é escrita e ilustrada pelo mestre de cultura Ismael Tariano.

Os tarianos moram em território do rio Uaupés, com presença nas comunidades de Taracuá e Iauaretê, no alto rio Negro, noroeste do Amazonas. São mais de 1.400 pessoas. Ismael explica que os contos são uma tradição do seu povo, por meio dos quais aprendem e compreendem as lições de vida deixadas por seus ancestrais e as preservam às futuras gerações.

Ele disse que aprendeu os contos que escreveu com o seu pai e outros anciãos tarianos. A preocupação dos mais velhos, afirma Ismael, é repassar experiências da vivência compartilhada com os demais seres vivos e não vivos.

“A palavra e o desenho são os meios de repasse do conhecimento entre nós, tarianos, o torna mais fácil e mais apreciável”, sustenta Ismael.

O livro é acessível a todas as faixas de leitores, embora o maior interesse do autor seja atingir crianças e adolescentes, porque eles podem contribuir, também, com um futuro melhor para o planeta.

Solidariedade, amor, amizade, justiça, paz e preservação

No geral, Contos do Tariano ensina sobre solidariedade, amor, amizade, justiça, paz, preservação da natureza e outros valores necessários à melhor compreensão da vida compartilhada.

Confira a entrevista que Ismael Tariano concedeu ao BNC Amazonas:

Você acha que os contos facilitam a divulgação da cultura Tariana entre não indígenas?

A gente sempre ensinou assim, contando histórias simples. Quem escuta, entende melhor e aprende sem perceber. Mesmo quem não é indígena consegue compreender.

Esses contos levam nosso jeito de viver, o respeito pela natureza e pelos outros. Quando a história é clara, ela caminha longe. Ajuda as pessoas a conhecerem a cultura Tariana e a respeitarem nosso saber.

Então, pode-se dizer que os contos sustentam a vida e o imaginário dos Tariano?

É isso mesmo. Essas histórias ensinam a viver em respeito com a floresta, com os animais, com a água e com as pessoas. A gente aprende desde cedo que ninguém vive sozinho, tudo é compartilhado.
Essa tradição também é importante para quem não é indígena, porque lembra que a natureza não é coisa para usar e jogar fora. Ela ensina cuidado, equilíbrio e respeito, coisas que hoje fazem muita falta.

Na sua opinião, as sociedades não indígenas podem aprender com os indígenas para frear os desastres causados pelos seres humanos?

As pessoas não indígenas podem aprender a respeitar mais a natureza. Nós aprendemos que a terra é viva e que tudo tem seu tempo. Quando se tira demais, a natureza responde. Os desastres não acontecem sozinhos, eles vêm do desrespeito. Se escutarem os povos indígenas, podem aprender a cuidar, a usar só o necessário e a pensar no futuro. Assim ainda dá tempo de proteger a vida na terra.

Os desenhos também são uma linguagem importante entre os tarianos. Fale-me sobre isso.

Os desenhos são uma forma de ensinar e de lembrar. Os mais velhos desenham para contar histórias, mostrar caminhos, animais, espíritos e a força da natureza. A criança aprende olhando, escutando e repetindo. Assim, o conhecimento vai passando de um para o outro.

É desse jeito que a gente guarda a memória do povo Tariano e ensina os mais novos a respeitar nossa história e nosso modo de viver.

A Arara e o Pica-Pau

Era uma vez, bem no coração da floresta amazônica, uma
Arara colorida que voava sem parar.

Mas naquele dia… oh, coitadinha! Ela estava cansada, com frio
e sem ter onde morar.

Enquanto voava, ouviu um som de toc-toc-toc! vindo de um
tronco de árvore.

Curiosa, foi chegando mais perto e… quem ela encontrou?

Seu primo Pica-Pau, que trabalhava sem descanso, furando a
madeira para achar larvas de inseto bem gostosas.

— Olá, primo! disse a Arara. Estou tão cansada… não tenho
casa para me proteger.

O Pica-Pau, muito bondoso, pensou um pouquinho e
respondeu: Não se preocupe, prima! Amanhã mesmo eu
preparo um lugar especial para você.

E assim foi feito. No dia seguinte, lá estava o ninho pronto,
quentinho e seguro.

A Arara ficou tão feliz que bateu as asas de alegria e disse:
Obrigada, primo! Estou aqui graças ao seu esforço. Você
trabalhou muito para me ajudar. Quero lhe dar um presente
especial: o meu topete vermelho!

O Pica-Pau sorriu contente. Colocou o topete na cabeça e ficou
ainda mais bonito!

E é por isso, crianças, que até hoje o Pica-Pau tem aquele tem aquele

enfeite vermelho tão charmoso.

E a amizade entre a Arara e o Pica-Pau continuou colorindo a

floresta com alegria.

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Foto: Wilson Nogueira/BNC Amazonas