A Amazônia nunca foi vazia: arqueologia desmonta mito colonial da floresta
Pesquisas revelam cidades indígenas, manejo sofisticado e lições para enfrentar a crise climática.
Publicado em: 19/12/2025 às 08:50 | Atualizado em: 19/12/2025 às 08:51
Durante séculos, a Amazônia foi descrita como um “vazio verde”. Agora, essa narrativa começa a cair.
Pesquisas arqueológicas mostram que, antes da colonização europeia, a floresta abrigava sociedades indígenas numerosas, conectadas e tecnologicamente avançadas. Estima-se que cerca de 10 milhões de pessoas viviam na região, falando ao menos 170 línguas diferentes.
Além disso, escavações revelaram cidades planejadas, estradas, sistemas hidráulicos e técnicas agrícolas complexas. Um dos exemplos mais conhecidos é a terra preta, solo fértil criado por povos originários, ainda produtivo após séculos.
Segundo o arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor da Universidade de São Paulo (USP), a ideia de uma Amazônia “pristina” serviu para justificar projetos predatórios e violentos. Para ele, a floresta atual é resultado direto de milhares de anos de uso humano planejado.
Já a arqueóloga paraense Mayara Mariano destaca que esses modos de vida eram sustentáveis e integrados ao território. Cidades indígenas não separavam urbano e floresta. Pelo contrário, incorporavam rios, árvores e alimentos ao próprio desenho urbano.
Essas descobertas ganham peso num momento de crise climática. Capitais amazônicas, como Belém (PA), enfrentam calor extremo, alagamentos e desigualdade urbana. Para os pesquisadores, soluções podem surgir justamente desses saberes ancestrais.
Assim, a arqueologia aponta que o futuro das cidades amazônicas pode estar menos no concreto e mais na floresta — não como passado, mas como inspiração viva.
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Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
