Dos Andes à Amazônia, franceses destacam generosidade dos ribeirinhos

Expedição ambiental em embarcação sustentável navegou 3,4 mil quilômetros, passando pelo Amazonas.

Da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 26/11/2025 às 19:31 | Atualizado em: 26/11/2025 às 19:57

Sob chuva grossa e vento de rio, uma jangada de totora encostou na praia da Fazendinha, em Macapá, na tarde de 14 de outubro de 2025. Assim terminou a travessia de três meses de quatro franceses pelos grandes rios da Amazônia, em uma embarcação montada com plantas e cipós.

Batizada de Expedição Pipilintu, a viagem foi pensada para marcar os 200 anos da independência da Bolívia e ligar simbolicamente os Andes ao Atlântico. O projeto misturou tecnologia tradicional indígena, desafio esportivo e uma mensagem de respeito aos rios amazônicos.

A balsa nasceu às margens do lago Titicaca, onde a família Esteban organizou mais de 200 feixes de totora ao longo de cerca de dois meses. O junco andino, usado há séculos por povos aimarás, formou dois cascos que, unidos, resultaram em um catamarã de aproximadamente seis metros de comprimento.

O barco ganhou vela simples e remos, suficientes para tocar a rotina diária da tripulação em ritmo médio de cinquenta quilômetros por dia. Um pequeno motor ficou guardado para situações de emergência, como parte do compromisso de reduzir ao máximo o uso de combustível fóssil.

A tripulação reuniu quatro franceses: o engenheiro e capitão Fabien Gallier, o navegador Erwan Rolland, o cozinheiro e responsável pela logística Benjamin Vaysse e o fotógrafo Télio Nouraud. Enquanto Fabien e Erwan se alternavam no comando da navegação, Benjamin cuidava da alimentação e Télio registrava encontros e paisagens para um futuro documentário.

Desafios

A jornada começou em território boliviano, com apoio inicial das autoridades navais do país vizinho, e avançou por rios cheios de corredeiras. Porém, ao se aproximar da fronteira, cresceram as preocupações com áreas marcadas por narcotráfico e presença de facções que usam as hidrovias como rota.

Por isso, a equipe decidiu interromper a navegação em um trecho e transportar a jangada em caminhão até Porto Velho, já em Rondônia, com suporte da Marinha brasileira. A partir da capital rondoniense, a Pipilintu voltou à água, desceu o rio Madeira e entrou definitivamente no sistema de grandes rios amazônicos.

Generosidade

No Madeira, a sensação de isolamento cedeu lugar à presença constante de comunidades ribeirinhas, que se aproximavam em pequenas embarcações para oferecer ajuda. Moradores dividiram comida, liberaram espaços para acampamento na margem e orientaram o grupo sobre bancos de areia, troncos e mudanças de correnteza.

A balsa virou atração por onde passava, especialmente porque quase ninguém ali tinha visto um barco inteiro construído com palha e amarrado com fibras naturais. Crianças tocavam a totora encharcada, faziam perguntas sobre a origem do grupo e posavam para fotos ao lado dos franceses.

Os dias se repetiam com calor intenso, tempestades repentinas, noites mal dormidas e longos períodos remando contra o vento. Ao mesmo tempo, cada parada rendia novas histórias e reforçava, para a tripulação, a ideia de que a travessia significava também um mergulho na vida ribeirinha.

Depois do Madeira, a Pipilintu alcançou o rio Amazonas e seguiu por trechos do Amazonas e do Pará, passando por municípios que documentaram a passagem nas redes sociais. Nessas cidades, a jangada recebia visitas em massa e fortalecia a imagem da expedição como símbolo de aventura limpa e de intercâmbio cultural.

Por fim, já no Amapá, a embarcação entrou pela região da Fazendinha, na orla de Macapá, fechando um percurso de aproximadamente 3,4 mil quilômetros desde a saída dos Andes.

O encerramento da expedição não significou transformar o barco em peça de exposição, e sim devolver seu material à natureza com outro papel. A totora foi desmontada e destinada à compostagem, para virar adubo em viveiros municipais de mudas que futuramente vão sombrear ruas e praças de Macapá.

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Fotos: Expedição Pipilintu/divulgação