Rio Preto da Eva é a cidade de pequeno porte mais violenta da Amazônia
Município sofreu forte impacto das disputas entre as facções criminosas PCC e CV.
Iram Alfaia, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 21/11/2025 às 12:39 | Atualizado em: 21/11/2025 às 12:46
Com pouco mais de 34 mil habitantes e distante cerca de 50 quilômetros de Manaus, a cidade de Rio Preto da Eva é a mais violenta da Amazônia na categoria Pequeno Porte II (entre 20 e 50 mil habitantes).
Os dados são da 4ª edição do estudo “Cartografias da Violência na Amazônia”, elaborado e divulgado nesta semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
“Esse munícipio do Amazonas sofreu forte impacto das disputas entre as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) até meados de 2024”, diz o levantamento.
Em 2025, os indícios apontam para uma situação de monopólio do Comando Vermelho no município.
O número de assassinatos em Rio Preto da Eva explodiu de 9 em 2022 para 42 em 2023, um aumento de 367%.
Em 2024, o número de mortes violentas baixou para 25 ou -40%, resultando numa taxa de 178% entre 2022 a 2024. A taxa trienal das Mortes Violentas Intencionais (MVI) é de 98,5%.
Entre os demais quatro municípios a apresentar as taxas de MVI mais elevadas nesse grupo dois estão localizados no Mato Grosso (Barra do Bugres e Aripuanã) e dois paraenses, Novo Progresso e Mocajuba.
Médio porte
No grupo de municípios Médios (50 a 100 mil habitantes), Coari, Iranduba e Tabatinga predominam entre os cinco mais violentos da Amazônia.
Coari, que está atrás apenas de São Félix do Xingu (PA), saltou de 33 assassinatos violentos em 2022 para 63 em 2024.
No caso de Iranduba, em 2022 foram registradas 62 mortes violentas contra 15 em 2024. Tabatinga alcançou o pico em 2023, quando houve 59 assassinatos.
Apesar de a taxa média de MVI na microrregião ser de 18,5 mortes por 100 mil, ou seja, ser inferior à média nacional de 20,8 mortes por 100 mil, Tabatinga registra uma taxa de 42,9 morte por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média do país, o que demonstra a concentração da violência em pontos de fronteira.
Violência
O documento revela ainda que o Amazonas e a microrregião do Alto Solimões são áreas de intensa atividade do crime organizado e de profundas vulnerabilidades socioeconômicas, apesar dos índices gerais de violência letal estarem em queda.
Em 2024, o estado registrou uma taxa de 27,4 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, índice acima da média nacional (20,8).
Houve u estudo de caso do Alto Solimões que resultou num diagnóstico da forte presença e dos impactos do crime organizado na microrregião, um território estratégico na tríplice fronteira Brasil-Peru-Colômbia.
Com 281 mil habitantes, sendo mais da metade indígenas (54%), e forte dependência de recursos públicos, a região combina vulnerabilidade socioeconômica, isolamento geográfico e baixa presença estatal, o que proporciona condições favoráveis à atuação de facções, em especial o Comando Vermelho, presente em seis dos nove municípios.
“A violência letal do local, embora abaixo da média nacional, concentra-se em Tabatinga, onde o crime organizado exerce governança e impõe regras tácitas. Em paralelo, há crescimento do consumo de ‘óxi’, do microtráfico e dos furtos associados à dependência química, o que fragmenta o tecido criminal”, diz a pesquisa.
Facções
“A Amazônia é um território que favorece a atuação de faccionados, milicianos e grileiros, que agem em dinâmicas complexas, em áreas enormes, fronteiras extensas e permeáveis, e com escassa presença estatal, o que significa insuficiente capacidade de fiscalização”, observa Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP.
Para ela, não é possível entender o crime organizado na região sem observar as particularidades socioeconômicas, políticas e territoriais da Amazônia, “bem como as transformações das dinâmicas das diferentes facções do crime organizado em seu processo de crescimento”.
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Foto: Erlan Roberto/Prefeitura Municipal de Rio Preto da Eva
