Estradas clandestinas explodem no sul do Amazonas, diz Observatório BR-319
Da mesma forma, diz que constatou crescimento acelerado de vias não oficiais na região metropolitana de Manaus, entre Careiro e Autazes.
Da Redação do BNC Amazonas*
Publicado em: 19/11/2025 às 06:10 | Atualizado em: 19/11/2025 às 06:10
A malha de estradas clandestinas e vias secundárias no sul do Amazonas vive uma expansão acelerada e avança em áreas mais sensíveis da Amazônia. É o que aponta um estudo inédito do Observatório BR-319 publicado nessa terça-feira, dia 18.
O estudo identificou 18,9 mil quilômetros de ramais na região situada entre os rios Purus e Madeira. Parte dessa malha, segundo o Observatório BR-319, está dentro de Unidades de Conservação (UC) e Terras Indígenas (TI).
A pesquisa aponta que a proliferação dessas estradas, muitas abertas sem qualquer tipo de licenciamento ambiental, está diretamente associada ao avanço do desmatamento, ao aumento da grilagem de terras e à intensificação de processos minerários na região.
O Observatório também detectou densa rede de estradas secundárias perto do entroncamento de Humaitá, onde a BR-319 cruza a Transamazônica (BR-230). Da mesma forma, diz que constatou crescimento acelerado de vias não oficiais na região metropolitana de Manaus, entre Careiro e Autazes.
Pressão sobre áreas protegidas
De acordo com o levantamento, 11,8% (2,24 mil km) dos ramais mapeados se sobrepõem a UCs federais, enquanto 6,8% (1,3 mil km) cruzam territórios indígenas.
A área é reconhecida pela elevada biodiversidade e pela preservação de florestas contínuas, embora historicamente sujeita a pressões de atividades ilegais.
A análise utilizou imagens e dados geoespaciais recentes, permitindo identificar padrões de expansão da malha viária. O sul de Lábrea, na divisa com Rondônia e Acre, configurada como região Amacro, aparece como um dos epicentros desse avanço. Outro ponto crítico é o entorno de Humaitá, onde a BR-319 cruza a Transamazônica (BR-230). O estudo também registra crescimento acelerado de vias clandestinas na Região Metropolitana de Manaus, entre Careiro e Autazes.
Estradas impulsionam mineração e grilagem
O observatório mapeou ainda cerca de 4.130 km de ramais sobrepostos a áreas com processos minerários ativos ou em análise. A convergência entre a malha clandestina e a atividade mineral, afirmam os pesquisadores, evidencia o papel dessas vias como infraestrutura de suporte logístico para extração e transporte.
“Nem todos os ramais são clandestinos, mas, em sua maioria, são abertos sem licenciamento ambiental ou qualquer planejamento. Essas vias estão entre os principais vetores do desmatamento na região e agora conseguimos identificar uma relação direta entre elas e a exploração mineral”, registra o relatório.
A dinâmica varia de acordo com o território. Em Lábrea e Canutama, a abertura de novos acessos costuma anteceder e estimular a grilagem de terras públicas.
Já em Porto Velho (RO) e Humaitá (AM), os ramais funcionam como vetores de expansão da fronteira agrícola.
Em Vila Realidade, zona rural de Humaitá e uma das áreas com maiores índices de desmatamento no estado, a presença densa de estradas secundárias revela a combinação entre falhas de governança, fragilidade da fiscalização e disseminação de ilícitos como exploração ilegal de madeira, ocupação irregular de terras públicas e mineração.
Leia mais
Ciclo de desmatamento se repete
Segundo o estudo, muitos desses acessos são inicialmente abertos para a retirada seletiva de madeira de alto valor comercial. Após a exploração, é comum que as áreas sejam rapidamente convertidas em pastagens para criação de gado ou destinadas à monocultura — um padrão que reforça a especulação fundiária e acelera o desmatamento.
As estradas funcionam como corredores de penetração na floresta, abrindo caminho para ocupações ilegais e estimulando a ocupação de áreas antes isoladas.
*Com informações do Observatório BR-319.
Foto: Orlando K junior/divulgação
