Garimpo e invasões atingem 60% das comunidades quilombolas
Estudo lançado na COP-30 revela sobreposição entre crise climática e violações de direitos, com racismo ambiental e exclusão financeira entre os principais desafios.
Da Redação do BNC Amazonas*
Publicado em: 13/11/2025 às 15:52 | Atualizado em: 13/11/2025 às 15:52
As invasões de terra e o garimpo ilegal já atingem quase 60% das comunidades quilombolas do Brasil. O dado é de uma pesquisa inédita divulgada nesta quinta-feira (13) pelo Instituto Sumaúma, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que acontece em Belém (PA).
O estudo, intitulado “Corpos-territórios quilombolas e o fio conectado da ancestralidade: entre as agendas de justiça climática e as práticas culturais e comunicacionais”, revela um cenário preocupante: 54,7% dos territórios quilombolas enfrentam secas extremas e 43,4% já perderam parte de suas plantações por conta das mudanças no clima.
“Os dados provam o que as lideranças denunciam há décadas: o racismo ambiental define quem recebe investimento e quem tem seu território invadido”, alerta Taís Oliveira, diretora do Instituto Sumaúma.
Segundo ela, não haverá justiça climática sem um olhar antirracista sobre o financiamento climático. “Os quilombos não são apenas vítimas das mudanças climáticas, eles são detentores das soluções ancestrais de manejo e proteção que o Brasil precisa”, completa.
Racismo estrutural e exclusão financeira
O levantamento mostra ainda que 64,2% das lideranças quilombolas enfrentam barreiras para captar recursos, reflexo direto do racismo estrutural e da falta de prioridade de instituições filantrópicas e investidores sociais a projetos liderados por comunidades negras.
A luta pela sobrevivência e pelos direitos básicos segue no centro da pauta: 87% das comunidades apontam o racismo como principal problema, seguido por falta de políticas públicas (85%) e educação (77,4%).
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Mulheres e jovens à frente da comunicação quilombola
A pesquisa também destaca o protagonismo de mulheres e jovens no campo da comunicação: 58,5% dos comunicadores quilombolas são mulheres e quase 70% têm entre 18 e 39 anos. Mais da metade (52,8%) possui ensino superior completo ou incompleto, mas 88% vivem com até cinco salários mínimos.
Mesmo diante da baixa infraestrutura digital — quase metade das comunidades enfrenta dificuldades de conexão —, o uso das redes sociais é quase universal: 96% utilizam o celular diariamente e 87% recorrem às plataformas digitais para mobilização e denúncia.
“A diferença está na nossa relação com a natureza”
Para Juliane Sousa, quilombola, jornalista e pesquisadora convidada do estudo, o retrato que ainda se faz dessas comunidades é distorcido.
“Ainda existe uma imagem equivocada e até estereotipada de que os quilombolas vivem isolados, e essa não é a realidade. Assim como outras populações, nós também temos acesso à internet, frequentamos faculdade e levamos uma vida como qualquer outra”, explica.
Ela reforça que o diferencial está na forma de se relacionar com o ambiente: “Nossa relação com a natureza vem das heranças ancestrais e se baseia no cuidado com todas as formas de vida. Para nós, nada disso é novo — é apenas a maneira como vivemos.”
O estudo conclui que garantir políticas públicas e financiamentos com perspectiva antirracista é urgente para que as comunidades quilombolas possam seguir como guardiãs da floresta e protagonistas na luta pela justiça climática no Brasil.
*Com informações da Agência Brasil.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
