12 horas? Argentina apaga 178 anos de luta operária12 horas de trabalho
Ao defender 12 horas de trabalho por dia, Milei desafia quase dois séculos de avanços sociais e empurra a Argentina de volta à era da exploração industrial.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 11/11/2025 às 13:33 | Atualizado em: 11/11/2025 às 13:33
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A proposta do presidente Javier Milei de estender a jornada de trabalho legal na Argentina para até 12 horas diárias não é apenas um passo para trás; é um salto brutal de quase dois séculos rumo à selvageria capitalista do início da Revolução Industrial.
Tal medida, apresentada sob a falsa bandeira da “liberdade” ou “produtividade”, é, na verdade, uma afronta direta à história da luta operária e à dignidade humana.
O retorno ao século XIX: retrocesso impulsionado pela ganância do capital
Para contextualizar a gravidade deste projeto, é imperativo resgatar a história.
No século XIX, durante a Revolução Industrial, não era raro que trabalhadores, incluindo crianças, fossem submetidos a jornadas extenuantes que chegavam a 16, 17 e até 18 horas por dia.
Foi neste cenário de exploração brutal que, em 1847, na Inglaterra, berço do capitalismo industrial mais voraz, a classe trabalhadora conseguiu uma vitória civilizatória: a Lei Fabril (Ten Hours Act).
Esta legislação estabeleceu um limite de 10 horas diárias para jovens e mulheres na indústria têxtil.
O que a proposta de Milei sugere é impor um aumento de 50% na jornada diária (passando de 8 para 12 horas) e permitir jornadas que a Europa industrializada já considerava excessivas e desumanas há 178 anos.
A Lei das Dez Horas foi o começo de uma jornada de progresso, pavimentando o caminho para o padrão universal das oito horas diárias (“8 horas para o trabalho, 8 horas para o descanso, 8 horas para o que quisermos”).
Milei, ao propor 12 horas, não está modernizando a economia; está transformando a Argentina em um museu de horrores sociais, negando os frutos de séculos de batalhas por direitos básicos.
A escravidão da produtividade e o custo humano
É um mito econômico refutado que jornadas mais longas geram maior produtividade. Pelo contrário, a exaustão física e mental inerente a 12 horas de trabalho contínuo – possivelmente seis dias por semana – leva ao burnout, ao aumento de acidentes de trabalho e à queda drástica na qualidade da produção.
O custo social e de saúde pública dessa proposta é incalculável.
Jornadas de 12 horas estão diretamente ligadas ao aumento de doenças crônicas (cardiovasculares e metabólicas), transtornos de ansiedade e depressão.
A pressão constante de um regime de trabalho exaustivo não só deteriora a saúde mental e física do indivíduo, como também onera o sistema de saúde do Estado.
A Argentina estaria trocando um suposto ganho marginal de produção por uma epidemia de esgotamento e doenças ocupacionais, transferindo o custo da exploração diretamente para a sociedade.
Esta medida ignora os avanços da ciência e da ergonomia para servir exclusivamente aos interesses do capital mais predador.
Ao invés de discutir a redução progressiva da jornada (tendência observada em países desenvolvidos, como a França e a discussão global sobre a semana de 4 dias), a Argentina opta pelo caminho da exaustão.
Trabalhar 12 horas não deixa espaço para a vida cívica, para o lazer, para o convívio familiar, para a educação ou para o descanso reparador.
É uma política que visa transformar o trabalhador em uma mera engrenagem exaurida, desprovida de agência e dignidade.
A proposta de 12 horas é a negação do progresso social e um ultraje à memória dos mártires da jornada de 8 horas.
Se aprovada, a Argentina não terá apenas uma crise econômica, mas uma crise humanitária de trabalho.
O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
