Antropólogo diz que conhecimento indígena é tratado igual a garimpo
João Paulo Barreto afirma que universidades ocidentais extraem saberes ancestrais sem retorno às comunidades.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 17/10/2025 às 09:02 | Atualizado em: 17/10/2025 às 09:19
O doutor em antropologia social pela Ufam João Paulo Lima Barreto afirmou que as ciências ocidentais ainda tratam o conhecimento dos povos indígenas como objeto de garimpagem.
“Somos ainda garimpos do ponto de vista do Ocidente”, disse Barreto ao ser perguntado sobre a possibilidade de diálogo entre o conhecimento indígena e o ocidental.
O tema foi abordado na roda de conversa da livraria Valer Teatro, ocorrida no dia 11 de outubro, com a participação de estudantes, professores e intelectuais.
Barreto pertence ao povo yepamahsã (tucano), cujas terras estão localizadas no alto rio Negro, no noroeste do Amazonas.
Trata-se de um dos mais importantes pesquisadores e intelectuais brasileiros que buscam efetivo diálogo entre as culturas ocidentais e as indígenas.
As diferenças entre ambos os conhecimentos são enormes e podem ser percebidas na medida que o pensamento indígena não separa o humano do ambiente, enquanto o ocidental os fragmenta.
Para conquistar o seu doutoramento, o antropólogo defendeu a tese com o título “Kumuã na kahtiroti-ukuse: uma ‘teoria’ sobre o corpo e o conhecimento-prático dos especialistas indígenas do alto rio Negro”.
Opção pela Amazônia
Durante a sua formação acadêmica – graduação em filosofia, mestrado e doutorado em antropologia social –, Barreto disse que adquiriu consciência de que os saberes ancestrais, como os de respeito à terra e a crença de que a natureza tem alma, são jogados para a periferia do conhecimento clássico.
“Senti. Senti mesmo que nós somos colocados como periferia do conhecimento ocidental. Isso me chocou muito, muito. E, também, fortaleceu o meu desejo de ficar aqui. Aqui é que quero ficar. Foi aqui que comecei”.
Barreto revelou que recebeu convites de outras universidades brasileiras, porém, decidiu permanecer na Ufam. E descontraiu:
“A Ufam é a minha casa, minha vida”, uma referência ao projeto de habitações populares do governo federal.
Esperança
Quanto ao diálogo entre os modos de pensar a ciência entre indígenas e não indígenas, Barreto acredita que será possível, desde que haja abertura da parte do conhecimento ocidental.
“Mas, sinto que aqui [na Amazônia] é possível. Quero voltar para a minha comunidade para formar especialistas, ainda que minimamente, para continuar na luta pelo ensino [formal] e pelo conhecimento indígena”.
Garimpagem
Nas suas viagens pelo Brasil e pelo exterior, Barreto disse que percebeu o interesse das universidades em pesquisar os modos de pensar, agir e produzir dos povos indígenas.
Porém, advertiu: “Mas [estão] interessados como garimpeiros. Isso é claro. É só extrair, fazer as publicações, mas nem pisam em nosso território, nem veem as nossas necessidades, mas são capazes de capturar as coisas pelos mecanismos que eles têm e publicar artigos”.
E completa: “Então, isso para mim é garimpo. Somos ainda garimpos do ponto de vista do Ocidente”.
A garimpagem como analogia remete ao secular saqueamento de minerais das terras indígenas até que elas se esgotem e se tornem ambientes arrasados, sem contrapartida social, econômica ou ambiental.
Posicionamento
Barreto entende que o seu posicionamento crítico ao pensamento ocidental lhe custou problemas, como o da demora de reconhecimento profissional e intelectual dentro da própria Ufam.
“Quando a gente se posiciona: quero fazer isso, muda tudo. Porque a agonia que eu tinha era essa: quando terminei a dissertação, quem me convidava? Eram universidades da França, Alemanha, Itália, depois a USP, a Ufscar. A Ufam passou muito tempo sem me convidar. Até ficava pensando: por quê? Hoje tenho vários convites da Ufam que não dou mais conta”.
Palavra
A doutora em filosofia Neiza Teixeira disse que o diálogo entre os dois modos de pensar é possível e cita suas obras – “Para aquém ou para além de nós” e “Filósofos, poetas e xamãs”, ambos editados pela Valer – como exemplos de mediação nessa questão.
“A união entre eles [filósofos, poetas e xamãs] é a palavra que cura”, disse a filósofa, referindo-se ao resultado da sua tese.
Ela também cita a doutora em filosofia Marilina Bessa, o doutor em filosofia Theo Fellows e a doutora Marilene Corrêa como “mediadores” das pesquisas e estudos, em nível de mestrado e doutorado (Ufam), que contemplam o pensamento e os saberes indígenas como sujeitos da pesquisa científica.
Para Neiza, Barreto e os demais envolvidos com essa temática são fomentadores da sistematização de um pensamento indígena.
“Há um movimento. Creio que estamos estabelecendo esse diálogo. Mas, é a tal coisa: penso com as heranças grega e cristã. Não consigo compreender o que você [Barreto] compreende. É sempre por aproximação. As portas [da Ufam] estão abertas a esse pensamento. O grande desafio é criar um quadro conceitual. Mas vai chegar o momento em que vocês [indígenas] criarão os conceitos relativos à sua maneira de pensar”.
Chamada
Marilene lembrou que existem linhas de pesquisas que contemplam o conhecimento indígena para além das humanidades, inclusive para a física.
“Agora mesmo, em um debate da Associação Brasileira de Ciências (ABC), a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), doutora em física Maria Cristina Bernardes Barbosa, está à procura de pesquisadores com projetos com temática indígena. Quem aqui souber de que modo as instituições estão trabalhando o encontro entre os chamados saberes ancestrais – ou conhecimento tradicional – e conhecimento científico me avise”, apelou a reitora na reunião, segundo a socióloga.
Segundo Marilene, a reitora explicou que foi eleita com essa pauta em sua plataforma de gestão, mas não conhece sequer um projeto que a contemple dentro da própria UFRG. E lhe informou, por sua vez, que conhecia ao menos uns dez lugares com programas de pesquisa nessa área.
“Comecei a mandar o nome de pessoas que abriram novos campos do conhecimento. O campo mais recente, dentro das mudanças climáticas, é também nesse trabalho de tradução do conhecimento ancestral”.
Olho do pássaro
Para ilustrar a sua fala, Marilene recontou um episódio vivido por uma equipe multidisciplinar liderada pelo climatologista Carlos Nobre em terras indígenas do estado de Roraima.
Os cientistas haviam procurado, sem sucesso, um lugar adequado para a instalação de uma torre de medição de aerossóis, quando pararam em uma comunidade indígena e revelaram a dificuldade que enfrentavam.
Ao ouvir o lamento dos visitantes, um menino desenhou para eles não só o lugar, mas qual seria o melhor posicionamento do equipamento. Quando lhe perguntaram como ela soubera dessa localização, a criança respondeu:
“É assim como os pássaros nos veem e nos mostram”.
“O menino dizia para os cientistas que ele via com os olhos do pássaro”, disse Marilene.
Não houve mais questionamento porque o lugar era o que os cientistas precisavam e não houve ninguém da equipe que o descobrisse.
Passagem do conhecimento
Assim, Marilene disse acreditar que até um determinado momento da socialização e da educação coletiva dos povos esse conhecimento é retido como normal, como é o nosso.
“E depois a coisa dificulta. Então esse tempo de passagem do conhecimento é que me interessaria no processo de formação, porque acho que ele é importante também. Nós só vemos vocês depois de grandes [dirigindo-se a Barreto], depois de estarem, aqui, conosco”

Esforço e atraso
Na opinião do doutor em filosofia Theo Fellows, também existe um esforço das universidades, sobretudo, na Ufam, para que se estabeleça o diálogo entre ambos os conhecimentos.
Mas, reconhece que essa abertura ainda precisa crescer, em razão do atraso das universidades brasileiras em relação a esse diálogo.
Fellows concordou com o termo “garimpeiro” de Paulo Barreto para criticar a forma como os pesquisadores ocidentais têm tratado o conhecimento dos povos ancestrais.
“O João Paulo utilizou uma analogia que vou passar a utilizá-la agora, que é a do garimpeiro. Eu também achei forte [referindo-se a uma posição de Marilene Corrêa], mas excelente, porque ela se encaixa perfeitamente. A gente vê muita pesquisa que, para mim, da filosofia, me faz pensar muito nessa etiqueta de etno”, disse Fellows.
Ele disse entender que, com esse “carimbo”, a pesquisa é extraída sem dar crédito aos pensadores indígenas, é levada para outro ambiente com a justificativa de que “é etno”.
E desse modo generalizado, a pesquisa passa a circular no meio acadêmico com um “selo” supostamente compartilhado com quem elabora esse pensamento.
“Eu coletei isso, é um etnopensamento, é uma etnofilosofia, é uma entnomatemática e deixa de dar crédito aos pensadores que estão a trabalhar um pensamento que é sistematizado, complexo e estruturado, que não é somente um conjunto de crenças”.
Fellows reforçou que a Ufam protagoniza um movimento de valorização do pensar indígena no meio acadêmico, “que ainda não acontece no resto do país”.
Por isso, fez um apelo ao expositor: “João Paulo, fica, aqui, conosco!”.

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Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
