A tia da merenda
As merendeiras são o elo concreto entre a Política Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o público alvo, os estudantes
Por Dassuem Nogueira
Publicado em: 01/10/2025 às 19:07 | Atualizado em: 01/10/2025 às 19:07
Em 30 de setembro e 1º de outubro ocorreu, na Ufam, o Seminário Regional de Formação e Valorização de quem alimenta o Brasil, para nutricionistas e merendeiras da alimentação escolar.
Trata-se de uma iniciativa de formação continuada do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e do Ministério da Educação (MEC).
As merendeiras são o elo concreto entre a Política Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o público alvo, os estudantes.
Contudo, são profissionais comumente invisibilizadas. Mas que tem muito a dizer, já que são as executoras finais da Pnae, são elas que experimentam as fragilidades e potencialidades da política.
O BNC Amazonas conversou com Maria Tereza da Silva Neta, 37 anos, que há três anos é merendeira concursada da Secretaria de Educação (Seduc) do Amazonas. Mas já trabalhava nesse ofício desde 2018.
Há um ano ela é merendeira da escola estadual Tiradentes, no bairro Petrópolis, zona sul, que possui o segundo maior contingente de estudantes da rede estadual. São pouco mais de 1200 estudantes que são alimentados com 3 refeições diárias (café da manhã, almoço e merenda da tarde).
Sou tia da merenda
Maria Tereza criou a página @soutiadamerenda.manaus.am no ano de 2023 com a, também, merendeira, Helen Carla Marinho Melo. O perfil do Instagram das tias da merendeira possui 14,4 mil seguidores.
“A gente teve a ideia de mostrar o dia-a-dia da escola, do dia-a-dia dos alunos, alimentação escolar, como era servida, como era proposta para eles, tudo que chegava de insumos, e a forma como a gente estava preparando. E mostrar também as necessidades do dia-a-dia e o que a gente podia fazer de melhor para eles”, disse Maria Tereza ao BNC Amazonas.
O sucesso no Instagram
Maria Tereza contou que as publicações que mais lhe trazem seguidores e visualizações são aquelas em que elas mostram as merendas com alimentos regionais, como o açaí:
“Muitas das vezes, quando postamos o açaí batido, o frozen, tivemos vários seguidores de outros estados que fizeram inúmeros comentários, falando que o açaí era bem grosso, bem consistente, tinha cor, já que, o que chega em outros estados é diferenciado. Mas acredito que é por conta da industrialização dele. Não é que nem o daqui’.
Sabor da terra
Segundo avaliação de Maria Tereza, os produtos regionais também são os que tem maior adesão dos estudantes:
“A gente tem essa cultura local muito forte do açaí. Nas escolas, as crianças adoram muito o açaí. No dia de açaí, é festa! É festa porque eles querem açaí com tapioca!”
A utilização do peixe também é sucesso na escola e nas redes: “Uma das coisas que viram muito também foi a utilização do peixe, o pirarucu. Antes vinha muito pirarucu fresco, a gente servia guisadinho, frito, e agora nós estamos recebendo pirarucu salgado, que é uma novidade”.
Comida com afeto
Um dos grandes desafios para proporcionar uma alimentação saudável para os estudantes, como preconiza a Pnae é a adesão aos legumes.
Mas as merendeiras encontram meios de colocá-los no cardápio com sabor e criatividade: “A abóbora não é muito aceita pelas crianças. Quando a gente inseriu o frango com o creme de abóbora, as crianças não sabiam que era de abóbora. Nossa! Houve uma aceitação muito grande. Depois que a gente passou para eles que era de abóbora, eles começaram a gostar ainda mais. Muitas pessoas no Instagram até pediram a receitinha”.
Lugar de fala
Para Maria Tereza, a sua participação no evento é uma oportunidade de acessar muito conhecimento e trocas de experiências: “É uma oportunidade de fazer muitas trocas, e também, de colocar a nossa fala como merendeiras do Estado, porque a gente não tem tantas oportunidades de falar sobre a nossa situação do dia a dia, do nosso cotidiano”.
Trocando receitas
Durante o evento, foram expostos painéis com experiências de outros estados da região norte, que atendem a povos indígenas e ribeirinhos, realidades para as quais as merendeiras precisam incorporar especificidades de sua cultura alimentar.
Maria Tereza avalia que a troca de experiências com outras realidades culturais, amplia sua perspectiva de atuação profissional:
“O evento traz um pouco das experiências de outros Estados, mesmo as experiências do interior do nosso próprio estado, mostra como é o oferecimento da alimentação, como é recebido nas comunidades rurais, nas comunidades indígenas, serve para estimular tentar trazer um pouco dessa feitura desses alimentos para o nosso cotidiano na alimentação escolar”.
Foto: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas
