Seca do Madeira expõe feridas da tragédia do Ana Maria VIII: 61 mortos

Esqueleto do barco que afundou em 1999 próximo a Manicoré reacende lembranças dolorosas.

Adríssia Pinheiro, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 18/09/2025 às 20:58 | Atualizado em: 18/09/2025 às 21:40

O rio Madeira vive mais um ciclo de extremos. Em 2025, a vazante iniciada em julho já derrubou os níveis com rapidez e chama atenção pela intensidade.

Em Porto Velho, nesta quinta-feira (18), o rio marcou 3,13 metros, após cair em média 20 centímetros em 24 horas.

A cena traz de volta memórias de uma tragédia. Com a seca, a carcaça do barco motor Ana Maria VIII voltou a aparecer desde o dia 15 de setembro nas proximidades de Manicoré (foto da direita), de acordo com perfil de notícias da cidade.

O naufrágio ocorreu em 10 de fevereiro de 1999, durante viagem entre Porto Velho e Manaus. A embarcação tombou após entrar em um redemoinho.

61 pessoas morreram. 18 corpos foram encontrados, mas 43 desapareceram para sempre nas águas turvas e profundas do Madeira.

Investigações comprovaram que o barco estava superlotado, com 192 passageiros, dois carros e mais de 93 toneladas de carga. A capacidade máxima era de 150 pessoas.

O laudo também mostrou falhas de fiscalização. O certificado de segurança estava vencido desde 1998, mas a embarcação continuava navegando livremente.

Sobreviventes relataram que o barco fez paradas extras após a vistoria da Capitania dos Portos, lotando ainda mais antes da tragédia.

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Herança

A lembrança ressurge em um ano de contrastes. Em abril deste ano, Manicoré decretou emergência após cheia de 26,59 metros, superando a cota de alerta de 24,59 metros.

Agora, o movimento é o oposto. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) prevê uma vazante menos severa que a de 2024, quando o rio chegou a 19 centímetros.

As cheias e vazantes moldam a vida amazônica. No Madeira, esse ciclo é ainda mais extremo, influenciado por chuvas andinas e oscilações climáticas como o El Niño.

O sobe e desce das águas balança transporte, abastecimento, colheitas e comércio, mas também guarda marcas de tragédias, como a do Ana Maria.

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Fotomontagem: Jeovan Hipólito e EnquantoissoemManicoré/Facebook/reprodução