O último combatente

Publicado em: 29/08/2009 às 00:00 | Atualizado em: 29/08/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Com uma envergadura enorme, o Combatente 1481 (lê-se quatorze oitenta e um) entra em forma na primeira fila da primeira coluna do pelotão. Esforçava-se para obedecer às ordens de direita e esquerda volver com os mais vívidos movimentos do corpo. Afinal, estava a alguns minutos de realizar o sonho de empunhar o fuzil e carregar o cantil na cintura para combater alemães e italianos na Segunda Guerra Mundial.

Naquele dia, em frente onde hoje é o Colégio Militar, no Centro, o Exército realizava a formatura de despedida dos pracinhas amazonenses que embarcariam para a Europa. O navio que os levaria estava no porto. À espera da jovem tropa, nem deixou esfriar os vapores. Mães, filhos, amigos e namoradas choravam. Pois a única certeza da partida para uma guerra é a incerteza do retorno.

O Combatente 1481 estava ali, no vigor de seus 20 anos de idade, imaginando-se ao lado dos aliados. Tudo estava certo. Passou meses no quartel em treinamento. A boina na cabeça e a mochila verde-oliva nas costas eram mais do que a certeza de que iria para o front. A certeza era tanta que já se imaginava de volta para a casa, sendo recebido com honras e medalhas.

Meus pensamentos reconstituíram todas essas cenas depois que li, em nota de jornal, a morte do penúltimo pracinha de Manaus que foi para a guerra. Ele também sonhava com as honras militares no dia de seu enterro. O fim de sua vida veio na semana passada, mas as honras, não. A família, segundo a nota, chegou a comunicar o Exército, que não quis saber desse herói do passado.

Depois de ler a notícia, imaginei: será que foi assim o fim do Combatente 1481? (Nem sei se ele ainda está vivo.) Considero-me um sujeito de sorte por tê-lo conhecido. Foi em agosto de 1999. Eu estava de saída do Jornal do Commercio, no Japiim. E ele estava em uma parada de ônibus, ali perto.

Assim que me aproximei do banco de concreto e fiz menção de que iria sentar, pulando, ele se levantou rapidamente. Tomei um susto! Mas, no mesmo instante, percebi que ele havia erguido corpo, estufado o peito, grudado a mão esquerda na coxa esquerda e levado a mão direita à altura da testa, como se estivesse batendo continência para mim.

Achando que aqueles gestos eram brincadeira, resolvi entrar no espírito militar que lhe tomava conta e interpretei uma voz de comando: “Fique à vontade, guerreiro!”. No mesmo instante, ele desarmou a continência e eu lhe perguntei: “O senhor é militar?”. E ele, prontamente: “Sou o Combatente 1481. É só que o posso lhe dizer, senhor”.

Ri da brincadeira, mas ele instituiu. “Eu estou em missão desde a Segunda Guerra Mundial”. Foi aí que pedi que me contasse sua entrada no combate. Depois de ouvi-la, fiquei curioso para tentar saber o que se passou nos momentos finais do embarque no navio. Só então conheci sua história.

Na marcha até o porto de Manaus, o Combatente 1481 liderava o pelotão. Estava suado. Seria o primeiro a subir a rampa da embarcação. Antes, porém, de escalar o navio, o comando ordenara: “Grupamento, atenção! Temos um último comunicado: Pensamos em tudo, pensamos no front, na vanguarda, pensamos nas armas. Só nos esquecemos de cuidar da retaguarda”, relatou meu parceiro de parada que, naquela época, em 1999, tinha 72 anos.

Depois disso, com um olhar penetrante, ele continuou: “O comandante me olhou e me disse: ‘Combatente 1481, pela rara habilidade que você possui, será mais útil na retaguarda. Você vai ficar aqui para confortar a família de seus companheiros. Sua missão será levar as notícias da guerra sobre os seus amigos. Até hoje, da minha turma, sou o único que continua em missão’”.

Meia hora depois, o 009 Japiim-Hiléia passou e continuamos a conversa.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Tags