A vendedora de rosas abusada

Publicado em: 27/02/2011 às 00:00 | Atualizado em: 27/02/2011 às 00:00

 

Neuton Corrêa*

A mulher entrou no busão à altura do bairro São Jorge. Antes de aparecer no ônibus, primeiro apareceu a bengala que a apoiava. Não se pode dizer simplesmente que ela embarcou, porque não foi uma ação comum de embarque, mas um procedimento extraordinário de subida ao coletivo. Então, para tentar ser fiel à narrativa, precisa-se dizer que a escalada no 120 foi uma operação de embarque.

Não, senhoras e senhores, não lhe faltou solidariedade. Sobrou-lhe! Eu, assim que vi a dificuldade da mulher em entrar na viagem, levantei-me para ajudá-la, porém contive-me porque outro passageiro se atirou na minha frente para ampará-la. No entanto, assim que ele segurou em seu braço, a passageira puxou-o bruscamente e disse, olhando para ele: “Deixa que eu sei me virar só”.

Espantei-me com autoconfiança da passageira, porque, se não fosse ele a vítima da irritação dela, seria eu ou qualquer outra pessoa que tivesse tentado ajudá-la. Além disso, por mais que o vigor de suas palavras dispensasse ajuda, seu corpo e idade apelavam por apoio.

Mas a reação da passageira não chamava atenção apenas pela hostilidade das palavras. O comportamento também não combinava com o buquê de rosas vermelhas naturais que carregava no braço esquerdo, lembrando moças com livros a caminho da escola.

Logo que a vi com as rosas, achei que estivesse voltando para casa (até porque já era quase meia-noite); que tivesse saído de uma festa familiar ou mesmo de um encontro romântico de terceira idade, afinal, ela estava produzida como se estivesse indo ou vindo de um baile, Porque  ela cobria o corpo com o brilho do cetim, do pescoço aos pés, sendo que a blusa era mais vistosa do que a calca branca, pois era estampada com flores vermelhas, combinando com a cor das rosas que carregava e com o tom do esmalte que lustrava suas longas unhas.

No entanto, amigos do busão, a distinta mulher, deslocando-se com dificuldade, começou a abordar outros passageiros. Dirigia-se somente aos assentos onde casais estavam sentados e a eles oferecia as lindas rosas.

Ao passar por mim, puxou um botão e perguntou se eu que queria dar de presente à minha esposa, mas, com reação pensada, respondi: “Melhor não, minha mulher pode achar que estou com peso na consciência”. Ela resmungou alguma coisa e foi ter com o Ferreira, meu amigo e parceiro de viagem que estava sentado à frente com a noiva. Na hora, vi a transformação da passageira marrenta em vendedora sedutora:

– Essa dama merece a beleza de uma rosa, o senhor não acha?

Fisgado pelo poder das palavras, ele respondeu:

– Quanto é?

– Dez reais.

E meu amigo retrucou:

– Na Vila Municipal, eu compro dessas por cinco reais. E fechadas! Essa flor está aberta, deveria ser mais barata.

A vendedora, então, transformou-se, de novo, e rebateu:

– Vai querer ou não vai?

Quase desistindo do negócio, mas, talvez, pensando que a noiva não entendesse sua reação, ele puxou uma cédula de vinte reais e deu à vendedora. E ela:

– O senhor não tem uma nota de dez.

Meu amigo disse que não e ela o ordenou:

– Vá ali com o cobrador. O senhor não quer agradar sua namorada? Então, vá lá.

A namorada de meu amigo, porém, intrometeu-se na compra, puxou uma cédula de dez reais e encerrou o negócio. E a vendedora saiu da dali resmungando: “Rosa não é para quem quer, é para quem pode”.

*Filósofo e escritor.

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