Dores da alma
Publicado em: 03/11/2011 às 00:00 | Atualizado em: 03/11/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Vai fazer dois meses e ainda hoje continuo sem saber o que dizer para aquele homem. Sou péssimo nesse negócio de manifestar sentimentos com palavras faladas. Condolência, por exemplo, evito, mas admiro quem a expressa. E olha que tem gente que o faz como se há muito estivesse esperando a notícia apenas para dizer, solenemente: “Sinto muito, aceite minhas condolências” ou “aceite meus pêsames”.
Já contei para vocês, aqui na “Crônicas do busão”, no início de nossos encontros de todos os sábados, há três anos, a história de dona Varlinda que caça velórios apenas para dizer à família do morto, com muito dó: “cuinfeito (com efeito), ainda ontem vi esta pessoa por aqui”, mesmo que não conhecesse o falecido.
Minha sogra, Dinoca, também tem grande experiência nessas coisas. Ela é um obituário ambulante. Sabe tudo sobre quem morreu ou está para morrer. De tanto eu zoá-la por causa disso, ela parou um pouco, mas antes, ela só puxava conversa com outros assim: “Sabem quem morreu?”
O noticiário preferido dela é o caderno policial. E, quando conhece o morto ou a família do morto, não pensa duas vezes em fazer uma ligaçãozinha para prestar solidariedade. Ela tem uma frase pronta que eu já decorei: “Querida (sempre ela começa assim), pôôôôôxa!!! Coitado do fulano! Me conte como foi?”.
Era essa disposição, de perguntar como foi e depois dar um “cuinfeito”, que eu precisava naquele último dia 7 de Setembro, quando aquele homem começou a contar a história que viveu há 55 anos em um seringal no interior do Estado, na calha do rio Madeira. Ainda me lembrei da Dinoca, mas não tive coragem de perguntar o que havia acontecido. Na verdade, nem era problema de coragem. Acontece que a história deixa qualquer pessoa sem saber o que dizer.
Ele não estava na conversa. Naquele dia, eu havia saído do Sambódromo, após a parada militar do Dia da Independência e tomado um ônibus com um colega de profissão, o Bosco, com quem certamente eu falava alto no ônibus por causa do busão superlotado. O Bosco me abordara sobre a saúde dos meus pais:
– E aí, como estão os velhos? (Já havia contado para ele que meu pai estava com complicações de próstata). E eu, mais pelo costume do que pela realidade dos fatos, respondi:
– Estão bem.
– Graças a Deus…
Nem o deixei concluir o raciocínio e contei.
– Na verdade, não está tão bem.
– Piorou!?
– O tratamento com remédio não deu jeito. Ele teve que se operar. Faz dois dias.
O Bosco, então, replicou:
– Pô, cara, perdi meu pai. Deus levou o velho Atalaia. Ele já estava bem velhinho, mas eu senti muito, porque eu fiz de tudo para que ele ainda estivesse por aqui.
Depois disso, senti que meu amigo fez uma pausa esperando que eu o confortasse, mas o mal de travar as palavras nessa hora me acometeu, porém fui salvo por aquele moreno que atentamente ouvia nossa conversa.
Ele, reduzindo o vazio que se abria no diálogo, falou:
– Sei o que vocês estão sentido. Isso é triste! – lamentou com uma breve pausa e depois continuou – Mas vocês não sabem o que é perder oito irmãos e o pai… de uma só vez. Só sobrou eu e minha mãe.
Eu travei a língua e o Bosco não conteve as lágrimas. Em seguida, desci para fazer integração com outro busão.
*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
