Coerência e verdade
Publicado em: 23/11/2012 às 00:00 | Atualizado em: 23/11/2012 às 00:00
Tenório Telles*
Mestre Guimarães Rosa afirmava que viver é perigoso. Já na metade da minha travessia, após enfrentar tantas tempestades e dragões, e matar tantos leões, constato que a vida não é um ofício para amadores. Na verdade, viver é mais que perigoso, é um risco e qualquer passo em falso podemos colocar tudo a perder. São tantos os enganos desta vida que, de repente, podemos nos negar, entrar em contradição com o que somos e com nossas crenças. O pior de tudo isso é que, tomados pelas ilusões e demandas do momento, às vezes nem nos apercebemos da própria perda. Viver exige uma vigilância permanente, atenção com nossos atos e escolhas.
A verdade é que devemos palmilhar os caminhos dessa vida com firmeza e coragem, sem nos desviarmos dos nossos valores e princípios. Afastar-se desses referenciais que norteiam nosso existir, é perder-se irremediavelmente. Fato é que não é possível seguir na travessia sem as quedas e as perdas. Tudo é parte do jogo da vida. Só uma coisa, entretanto, não podemos consentir: perder-se. Na caminhada perdemos amigos, sonhos, bens… Abdicar das verdades e do que dar sentido à nossa existência é a nossa morte: simbólica e social.
As lições que tenho colhido no meu aventurar pelos caminhos do mundo é que devemos ter cuidado e proteger o nosso ser, fortalecendo nossas ideias e convicções, pois há sempre o risco de sucumbirmos a uma ilusão, promessa de poder ou ao dinheiro fácil. Trabalhar e conquistar sucesso e resultados materiais é legítimo, mas tornar-se escravo dessas coisas e amesquinhar-se é a nossa ruína. Por isso, não devemos nos afastar demasiado dos nossos limites. Devemos saber sempre até onde ir, sem por em risco a coerência e as verdades em que acreditamos.
A realidade política atual tem sido pródiga em exemplos de negação de princípios e posturas coerentes. Estabeleceu-se um jogo que parece não ter limites: para vencer, trai-se não só as ideias, mas os amigos. Para vencer, trai-se até Deus e alia-se com o diabo. A postura de certas denominações religiosas e inúmeros pastores, que se portam como mercadores da fé, é incompatível com os princípios cristãos. Misturam a missão espiritual de que são portadores com os interesses mundanos, baixos e oportunistas. É uma vergonha o que fazem: além de usar o nome de Deus em vão, maculam a palavra de Cristo, que é sábia e sagrada, e nada tem a ver com a banalidade do vale tudo em que se transformou o processo político em nosso país. Nada disso é sincero e, como atores, fazem uso desse expediente para enganar o povo.
Essa incoerência é igualmente recorrente nas relações políticas. Antigos adversários se unem com o mesmo propósito de fazer valer interesses e conquistar posições e dinheiro no jogo do poder. Abre-se mão de fundamentos e convicções em nome de subterfúgios e eufemismos como “governabilidade” e “pacto pelo desenvolvimento”. Tudo palavras vazias. Hoje vivemos no país uma realidade insólita: direitistas de braços dados com ex-esquerdistas, torturadores conluiados com torturados, picaretas, como dizia lula (com minúscula, mesmo) antigamente, com as antigas vestais da ética e da honestidade. É um festim de enganos, em que o povo é só uma justificativa. Tudo isso pra quê? Essa gente esqueceu, entretanto, de uma coisa: na vida nada fica impune e a incoerência traz em si os germes de sua destruição. Manter-se fiel aos valores e à verdade é o porto seguro que nos salva das tempestades e das ilusões. E nos ajuda a seguir na travessia – fiéis a nós mesmos e ao que somos.
*O autor é escritor e editor
